CHOCOLATE (2016) – CRÍTICA
 
Gênero: Drama
Direção: Roschdy Zem
Roteiro: Cyril Gely, Gérard Noiriel, Olivier Gorce, Roschdy Zem
Elenco: Alex Descas, Alice de Lencquesaing, Antonin Maurel, Christophe Fluder, Clotilde Hesme, Frédéric Pierrot, Héléna Soubeyrand, James Thierrée, Mick Holsbeke, Noémie Lvovsky, Olivier Gourmet, Olivier Rabourdin, Omar Sy, Thibault de Montalembert, Xavier Beauvois
Produção: Eric Altmayer, Nicolas Altmayer
Fotografia: Thomas Letellier
Montador: Monica Coleman
Trilha Sonora: Gabriel Yared
Duração: 110 min.
Ano: 2015
País: França
Cor: Colorido
Estreia: 21/07/2016 (Brasil)
Distribuidora: Califórnia Filmes
Estúdio: Gaumont / Korokoro / M6 Films / Mandarin Films
Classificação: 14 anos
Sinopse: Rafel Padilha foi vendido ainda quando criança. Anos depois ele consegue fugir e é encontrado por um palhaço, que o leva para casa e o coloca nas suas apresentações. Anos depois, Padilha vira Chocolat, o primeiro palhaço negro na França.
Nota do Razão de Aspecto:
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Chocolate tem como protagonista Rafael Padilla – ou Kananga, o canibal, no início de sua carreira no circo, e posteriormente, o famoso palhaço Chocolate, um homem que nasceu escravo, fugiu,  se libertou e se tornou primeiro negro a fazer sucesso no mundo artístico francês, no início do século XX. Com seu parceiro Georges Footit, um palhaço já famoso, porém em decadência, Chocolate revolucionou o mundo do circo e estabeleceu os novos padrões de atuação dos palhaços circenses para todo o século XX. Para um leitor do século XXI, pode parecer despropositado fazer um filme sobre a jornada ao estrelato de dois palhaços de circo, porém, deve-e considerar que, naquela época, o circo constituía a principal forma de entretenimento familiar – o cinema ainda estava nos seus primórdios, o rádio ainda não se havia consolidado como entretenimento e o mundo ainda estava a algumas décadas de conhecer a TV.
Como reconstrução de época, o filme faz um trabalho de primeira categoria. Todo o design de produção, o figurino, a direção de arte e a fotografia nos transportam para a “Era dos Impérios”. A trilha sonora é evocativa e precisa, ao saber dosar os momentos de graça e de tristeza, de leveza de de tragédia, de sucesso e de decadência. O trabalho de maquiagem também merece destaque: o envelhecimento de Chocolate no ato final é mais do crível, é totalmente realista.
Chocolate tem um roteiro preciso, que, no primeiro ato, concentra o desenvolvimento da narrativa na construção relação da dupla Padilla e Footit, no interior da frança, quando eram ainda explorados em um crico de interior, para, no segundo e no terceiro ato, concentrar-se no conflito entre os personagens, resultado do processo da tomada de consciência de Chocolate em relação à sua posição subalterna, à sua necessidade de ter seu talento reconhecido e à sua inconformidade, ao mesmo tempo realista e ingênua, sobre a sua condição de negro na sociedade parisiense do início do século XX. Os personagens principais são bem desenvolvidos, e os personagens colaterais cumprem papéis relevantes para o desenvolvimento da história. Os pontos fracos do roteiro são o personagem Victor, um militante político haitiano que serve de inspiração para a tomada de consciência do protagonista, mas que acaba sendo desperdiçado em aparições esporádicas e mal aproveitadas, e o mal desenvolvimento da homossexualidade de Footit, que se resume a uma cena deslocada no conjunto da narrativa – supostamente, esta cena deveria justificar as razões de Footit não acompanhar Chocolate nas apostas, nos prostíbulos e nas festas e a solidão do personagem, mas esta característica careceu de melhor desenvolvimento narrativo.
Para além de todos os méritos, Chocolate é um filme centrado nas atuações e delas depende para funcionar. Omar Sy faz um trabalho intenso e envolvente para expressar a ingenuidade, a insatisfação, a ousadia, a revolta os traumas e vícios de um homem que não compreendia os limites da sua posição naquela sociedade, e James Thierrée é eficiente na construção do personagem de um homem solitário e incompreendido, de um palhaço triste, de alguém que descobriu o talento e levou ao sucesso o primeiro negro na história da França, mas que não soube como dividir esse sucesso e como compreender as angústias e sonhos do seu parceiro, levando ao rompimento.  Além disso, o mise en scene circense tem um timing perfeito, e os atores convencem como palhaços reais. No filme, incluiu-se uma cena na qual se reproduz a gravação de um filme da dupla de palhaços, que ficou idêntica ao filme original – o qual é mostrado ao público durante os créditos finais. Não tenho dúvidas de que serão atuações premiadas neste ano.
Embora o tema do filme indique se tratar de uma comédia, Chocolate é, fundamentalmente, uma tragédia, um drama sobre a ascensão e a queda de homem que ousou tentar ir mais longe do que a sociedade racista a que pertencia jamais lhe permitiria alcançar. Em sua jornada ao sucesso e à posterior decadência, o ex-escravo e palhaço talentoso teve a ousadia abdicar de um carreira de sucesso do Nouveau Cirque de Paris para provar que poderia ser mais do que um palhaço augusto, que cumpria o papel de ser tratado como idiota, levar chutes no traseiro e reproduzir esteriótipos racistas todos os dias, durante muitos anos. Para isso, assume o risco de abandanar sua bem-sucedida carreira e arriscar-se a ser a o primeiro negro a interpretar Othelo, de Shakespeare, em um teatro francês. Este episódio foi, ao mesmo tempo, o ápice e o fundo do poço da carreira daquele que, um dia, ousou tentar ser mais do que um negro que fazia os brancos ricos rirem da sua suposta idiotia.

Chocolate tem uma mensagem forte sobre a hipocrisia da sociedade francesa, o racismo, a discriminação e o preconceito social. Trata-se de uma história real , a jornada de um homem que, por quase um século, caiu no esquecimento, que foi discriminado e humilhado per tentar-se igualar à sociedade que se dispunha a pagá-lo para que fosse um entretenimento baseado em esteriótipos racistas. Um século depois da morte de Rafael Padilla, infelizmente, o mundo não mudou tanto quando se poderia imaginar.por Maurício Costa

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