NETFLIXING: STRANGER THINGS – CRÍTICA
Leia a ficha técnica da série aqui
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Imagine uma mistura de E.T, Contatos Imediatos de 3º Grau, Os Goonies, O Enigma do Outro Mundo, Poltergeist, Dungeons & Dragons e Conta Comigo. Acrescente pitadas de ficção científica, um pouco do tom de Arquivo X, mescle tudo em uma história contada em oito episódios e teremos a primeira temporada da surpreendente, e excelente, série Stranger Things, o mais novo lançamento original da Netflix. Mais um acerto das produções do maior site de streaming do mundo.
Criada, escrita e dirigida pelos Irmãos Duffer, Stranger Things é muito mais do que um mar de referências aos anos 1980: trata-se de uma experiência realmente bem sucedida de traduzir para a nossa época o espírito daquela década sem fazer uma caricatura grotesca. Construindo uma linguagem narrativa e visual ao mesmo tempo contemporânea e nostálgica, Stranger Things é capaz de agradar tanto aos, hoje, trintões e quarentões – crianças e adolescentes naquela época – quanto aos adolescentes e pré-adolescentes de 2016, tamanhas a consistência e a força dos personagens. Afinal de contas, não importa o lugar, não importa a época, alguns dilemas humanos são universais, e todos têm algum personagem e/ou drama com o qual se identificar no desenvolvimento da série.
Ambientada na pequena cidade estadunidense de Hawkins, em 1983, Stranger Things conta a história do desaparecimento de Will, após encontrar uma criatura monstruosa no retorno à sua casa, ainda no primeiro episódio. O desaparecimento da criança desencadeia uma sequência de fatos que levarão a acontecimentos misteriosos envolvendo um laboratório de pesquisas do governo, a fuga de uma jovem paranormal – que aparece em Hawkins – e à busca de Will, que envolve sua mãe, Joyce, o xerife bêbado e depressivo da cidade, Hopper, seu irmão Jonathan, seus amigos Mike, Lucas e Dustin e a criança paranormal 11. Nessa teia de personagens, desenvolvem-se quatro tramas paralelas, que convergem no final da temporada.
O núcleo mais interessante e envolvente de todos para quem era criança nos anos 1980 é aquele formado pelos jovens Will – que desaparece no primeiro episódio, Mike, Dustin, Lucas e pela paranormal 11.  Nossos jogadores de Dungeons & Dragons têm um senso de lealdade e de amizade infalível e resolvem partir em uma jornada secreta de aventura para encontrar seu amigo desaparecido. Ao longo do processo, enfrentarão perigos e monstros reais, ainda que com a válvula de escape da comparação com os personagens do RPG, entrarão em conflito quanto à presença de 11 e questionarão a amizade e a lealdade de cada um. A história dos nerds “clube do audiovisual”, como se autodenominam na escola, é uma jornada de autodescoberta, da descoberta do amor, de amadurecimento, do aprendizado em como lidar com a morte e com as perdas e, acima de tudo, uma lição de ética e lealdade. Neste grupo de amigos, está o meu personagem favorito na série: Dustin, um pré-adolescente gordinho, que ainda está trocando os dentes de leite – sim, isso mesmo, ele sofre de uma anomalia dentária. Apesar de falar esquisito, Dustin é o personagem mais maduro e mais razoável de todos os cinco, a voz da razão, o mediador, o elo e de equilíbrio entre todos os demais.
O núcleo mais dramático é aquele formado pelos adultos da cidade, representados por Joyce, mãe de Will, e pelo Xerife Hopper. Esses personagens são aqueles que desvendarão o mistério, apesar de, no começo, tudo parecer loucura de uma mãe perturbada pela perda do filho. Atormentado pela morte de sua filha – possivelmente de leucemia, isso não fica explícito no filme -, o Xerife torna a busca de Will uma questão de honra pessoal. Apesar de ser apenas um policial de cidade do interior, sua perspicácia o leva a desvendar uma grande conspiração, que envolve um grande laboratório na cidade, a fuga de 11, o desaparecimento de Will e a criatura que o rapta. Hopper faz a transição entre o mundo fantástico e o mundo racional, ao não ignorar completamente as alegações de Joyce de que Will entrava em contato perla luz elétrica e estava dentro da parede da casa.
O núcleo mais fraco é o adolescente, formado por Jonathan, irmão mais velho de Will, Nancy, irmã de Mike, Bárbara, amiga de Nancy, Steve, namorado de Nancy e atleta do High School, além de alguns personagens secundários. Com o rapto de Bárbara, Nancy acaba se aproximando de Jonathan e se envolvendo na trama que leva ao mundo da criatura misteriosa e à conspiração governamental. Neste núcleo, temos um dos principais problemas da temporada, que discutirei mais adiante, depois do alerta de spoiler. Apesar disso, ainda é núcleo bem desenvolvido, por ter evitado tratar os personagens de forma estereotipada e unidimensional. Todos os personagens evoluem e se transformam. Steve não é um atleta malvado e sem consciência, a aproximação de Nancy e Jonathan não resulta necessariamente em envolvimento romântico (ou sim, veja e descubra!).
O núcleo mais mórbido é o do Laboratório Hawkins, de onde 11 fugiu. Lá, a pequena garota era uma cobaia de experimentos paranormais relacionados à Guerra Fria, de um lado, e, de outro lado, ao mistério relacionado ao desaparecimento de Will. Neste núcleo, temos o vilão da temporada, o Dr. Brenner, o “papai” de 11, um cientista frio e manipulador, que não hesita em fazer aquilo que for necessário para realizar suas descobertas. Todas as “coisas estranhas” que acontecem em Hawkins decorrem das suas pesquisas e da perda de controle sobre as cobaias. A equipe do Dr. Brenner, apoiada pelo aparato governamental, faz as intervenções para o controle de danos da situação, que resultam em um conflito final catártico, quando todos os núcleos convergem para o desfecho da primeira temporada.

Com uma trilha sonora altamente evocativa e com referências recorrentes ao período – como o pôster de O Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter, os ingressos para Poltergeist e o filme A Chance, de Tom Cruise, em cartaz, Stranger Things faz um excelente trabalho de reconstrução de época e, mais do que isso, uma tradução eficiente do espírito daquele período para a nossa e para a nova geração. Formada por um conjunto de elementos que, embora dentro do mesmo campo de gostos e referências, poderiam resultar em um pastiche, a série dos Irmãos Duffer resulta em uma narrativa coesa, cujo suspense prende a atenção do espectador até o desfecho. O uso inteligente dos flashbacks não apenas é eficiente para mover a narrativa e fazer revelações importantes, mas também para que entendamos a motivação dos personagens e o que os levou até aquele ponto. Não consegui parar de assistir até que o cansaço me vencesse, no primeiro dia, e até o desfecho, no segundo dia.

Stranger Things é o melhor lançamento do ano, até o momento, e, no conjunto, supera o desempenho da temporada de Game of Thrones. Se você não sabia que série assistir depois do fim de GoT, esta é a melhor escolha.

ALERTA DE SPOILER
A PARTIR DESTE PONTO, LEIA POR PRÓPRIA CONTA E RISCO!
Se você já completou a primeira temporada de Stranger Things, já deve saber que se trata de uma série impressionante, mas que não é perfeita. Embora não comprometam o desempenho geral, há, pelo menos, dois problemas sérios de roteiro. Raciocinem comigo:a)  O
desaparecimento de Barb serviu como motivação para o envolvimento de Nancy na
trama e para a sua aproximação de Jonathan, mas o desenvolvimento e a resolução
dessa trama foram pífios. Não se pode acreditar que a garota tenha desaparecido
por mais de uma semana, que tenha morrido no final, e que a polícia tenha
deixado por isso mesmo – “ela deve ter fugido da cidade” – e que a
participação dos pais tenha sido a mãe da personagem pedir a Nancy “peça
para Barb me telefonar” -, quando foi procurada. Depois do clímax do season
finale, eu esperava uma resolução melhor para o destino de Barb, mas parece que
os Irmãos Duffer não se importaram muito com isso. Falha grave;b) Se
as criaturas do mundo invertido podiam detectar sangue a quilômetros de
distância e atravessarem o portal em busca de alimento, como ficou comprovado,
por que diabos eles nunca forma atraídos pelo sangue no nariz de 11? Não há explicação
razoável para isso na temporada. Segunda falha grave.Apesar das falhas, o desfecho da temporada deixa em aberto algumas questões muito importantes para a continuação da história, as quais, creio, serão respondidas na segunda temporada:a) como foram abafados todos aqueles massacres para que as pessoas estivessem vivendo tranquilamente apenas um mês depois dos acontecimentos?

b) ao que tudo indica, 11 não morreu, mas apenas mudou de dimensão. Os waffles deixados pelo Xerife na floresta somados ao olhar nostálgico de Mike para o antigo esconderijo de 11 nos dão a indicação de que a nossa paranormal favorita retornará;

c) se o ar do mundo invertido era tóxico, como estão bem as pessoas que estiveram lá?

d) após o clímax, Hawkins está no inverno, e a neve faz uma rima visual com a atmosfera do mundo invertido. Vocês também notaram essa semelhança?

e) a cena de Will em frente ao espelho, quando expele algo que parece uma larva das criaturas do mundo invertido, indica que ele transite ou esteja entre os dois mundos. Não esqueçamos que, ao contrário dos demais sequestrados, Will não foi morto, mas, sim, transformado em uma espécie de incubadora, da qual foi salvo pela mãe e por Hopper;

f) considerando as perguntas dos itens “d” e “e”, não seria possível que aquele cenário do final do episódio seja uma dimensão alternativa? Essa dimensão pode ser controlada por Will, ou não, e ser do conhecimento somente das pessoas diretamente envolvidas. Claro, sempre pode ser apenas uma rima visual, mas a cena final me deixou coma pulga atrás da orelha.

Descobriremos em 2017.

 

 

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