JULIETA (2016) – CRÍTICA
 



Gênero: Drama

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Alice Munro, Pedro Almodóvar
Elenco: Adriana Ugarte, Agustín Almodóvar, Bimba Bosé, Blanca Parés, Daniel Grao, Darío Grandinetti, David Delfín, Elena Benarroch, Emma Suárez, Esther García, Inma Cuesta, Jimena Solano, Joaquín Notario, Jorge Pobes, María Mera, Mariam Bachir, Michelle Jenner, Nathalie Poza, Paqui Horcajo, Pilar Castro, Priscilla Delgado, Ramón Agirre, Ramón Ibarra, Rossy de Palma, Sara Jiménez, Susi Sánchez, Tomás del Estal
Produção: Agustín Almodóvar, Esther García
Fotografia: Jean-Claude Larrieu
Montador: José Salcedo
Trilha Sonora: Alberto Iglesias
Duração: 96 min.
Ano: 2016
País: Espanha
Cor: Preto e Branco
Estreia: 07/07/2016 (Brasil)
Distribuidora: Universal Pictures Brasil

Estúdio: El Deseo S.A.

Sinopse: Julieta sofre com a morte de seu marido, Xoan. Sua filha Antía acaba precisando lidar com a depressão da mãe, mas elas se distanciam muito nesse processo. Quando a garota completa 18 anos, sai de casa sem dar satisfações e faz com que Julieta perceba o abismo entre as duas. Envolto em temas densos como destino e culpa, o longa retrata a história de uma mãe que vive uma incerteza depois de ter sido abandonada. O roteiro ainda destaca o mistério que nos leva a apagar pessoas de nossas vidas como se elas não tivessem deixado alguma lembrança.

Nota do Razão de Aspecto:
 
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Os filmes de Pedro Almodóvar estão no mesmo universo afetivo e cinematográfico dos filmes de Woody Allen. Embora sejam diretores de gerações diferentes, cuja linguagem cinematográfica guarda semelhanças muito remotas, e que representam mundos muito distintos em seus filmes – Almodóvar retrata as contradições de uma sociedade latina, católica, conservadora e moderna, com grande ênfase no universo feminino nas imperfeições humanas; o segundo retrata as contradições de uma sociedade cosmopolita, influenciada pelas mais diferentes culturas, com ênfase nos dilemas masculinos e, também, nas imperfeições humanas-, ambos transitam com fluidez entre a comédia, o drama, e o suspense. A complexidade humana e certo relativismo moral são os temas que ligam estes dois dos maiores cineastas vivos ao mesmo universo.

 

Depois do terrível Amantes Passageiros (nunca imaginei que um cineasta tão bom pudesse fazer um filme tão ruim), Julieta veio para provar que o diretor ainda é capaz de realizar obras de alto nível,  com temas relevantes e marcantes para o público. Ao retornar à reflexão sobre o universo feminino, Almodóvar consegue um resultado excelente neste filme em que o acúmulo dos ressentimentos, das coisas não ditas, das expectativas frustradas e das esperanças perdidas causa um incômodo, um nó no estômago, resultado da verossimilhança da narrativa e da força do roteiro, assinado pela Nobel de Literatura Alice Munro – autora de três contos que inspiram o filme – e pelo próprio Almodóvar.
Ao encontrar, nas ruas de Madri, uma antiga amiga de infância de sua filha, Antía, abrem-se as feridas do passado de Julieta, que não suporta o ressurgimento de um fantasma do passado. O encontro tem tamanha força que Julieta começa a escrever uma carta para a filha, desesperançada, sem endereço certo, para a filha, a quem não vê há treze anos. A carta torna-se o fio condutor da narrativa, que nos leva a uma viagem ao passado e às origens de sua tragédia pessoal. Apesar de o voice over não se constituir com o recurso mais sofisticado da narrativa cinematográfica, em Julieta, acaba por ser funcional.
A história de julieta nos é contada alternando o passado e presente, de forma que o espectador perceba, e sinta, as consequências daqueles acontecimentos para a protagonista e a ter empatia com a personagem. Ao nos confrontarmos com a história de Julieta, percebamos muito além das coisas ditas ou feitas: percebemos as meias verdades, as verdades não ditas, as mentiras, as surpresas, enfim, percebemos as relações familiares como elas são, com todos as suas alegrias e os seus ressentimentos.Para os fãs do diretor, Julieta é um filme familiar. Não se deve entender o sentido de familiar como genérico, sem originalidade ou como uma mera repetição de fórmulas anteriores. Julieta é familiar porque os elementos da linguagem de Almodóvar estão presentes nos temas – o amor, a traição, as relações conturbadas, o conservadorismos religioso perene na cultura tradicional espanhola, os traumas e o medos que perturbam o protagonista, o passado nebuloso-, nos personagens arquetípicos – a mulher forte, mas sofrida, a mãe, a filha, o marido adúltero, a conservadora religiosa intrometida, o namorado obcecado-, e na linguagem visual – as cores quentes, os figurinos extravagantes, a montagem inteligente e a fotografia narrativa. Todos esses elementos reúnem-se de forma coerente, sem parecem um pastiche de si mesmos. Sentimo-nos no universo de Almodóvar, mas não nos sentimos como se já conhecêssemos esta parte daquele universo.

 

O ponto mais forte do filme são as atuações, especialmente de Adriana Ugarte e Emma Suárez – intérpretes de Julieta na juventude e na maturidade, respectivamente. Ambas as atrizes realizaram uma interpretação contida, que evitou ao máximo o melodrama. Em vez de choro, temos o abatimento, em vez de destacar a tristeza, temos a depressão, em vez da raiva, temos o desespero e o ressentimento. Apoiadas por um elenco cuja maioria dos atores nunca tinha trabalhado com Almodóvar, as atrizes fazem um trabalho memorável na construção do universo particular daquela mulher. 

O filme tem uma fotografia belíssima, apoiada por uma direção de arte e figurino impecáveis, no melhor estilo dos filmes de Almodóvar, com cores quentes, trajes extravagantes e ambientações que refletem o estado de humor por personagem, como na cena em que Julieta precisa dar uma má notícia e se senta em um sofá encostado uma uma parede decorada por quadro pintado em preto. Chamou-me a atenção, também, a forma como foram utilizadas as cores quentes e saturadas no filme: em diversas cenas, principalmente externas, temos um foco, um objeto ou personagem, que se destaca do conjunto com cores quentes em contraste com cores pasteis. Assim, não temos ambientes completamente coloridos e exagerados, mas sim, um contraste marcante entre o personagem e o ambiente.Julieta veio para nos lembrar que existe, no cinema, espaço para as mulheres como centro da narrativa. Quiçá o exemplo de Almodóvar fosse seguido naturalmente por Hollywood.

Por Maurício Costa
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