PAULINA (2016) – CRÍTICA
 
Gênero: Drama/Suspense
Direção: Santiago Mitre
Roteiro: Daniel Tinayre, Eduardo Borrás, Mariano Llinás, Santiago Mitre
Elenco: Dolores Fonzi, Esteban Lamothe, Oscar Martínez
Produção: Didar Domehri, Fernando Brom, Laurent Baudens
Fotografia: Gustavo Biazzi
Trilha Sonora: Nicolás Varchausky
Duração: 103 min.
Ano: 2015
País: Argentina / Brasil / França
Cor: Colorido
Estreia: 16/06/2016 (Brasil)
Distribuidora: Esfera Filmes
Estúdio: Full House / La Unión de los Ríos / Lita Stantic Producciones / Story Lab / Televisión Federal (Telefe) / VideoFilmes
Classificação: 16 anos
 
Sinopse: Paulina larga carreira promissora para ser professora em bairro perigoso da Argentina. Mesmo após ser abusada por membros de uma gangue local e perder o apoio do pai, poderoso juiz, e do namorado, ela continua firme em sua missão de levar conhecimento para as pessoas da região.
Nota do Razão de Aspecto:
 
 
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O cinema argentino raramente deixa a desejar. Embora ainda façamos a associação direta entre filmes argentinos e Ricardo Darín, resultado do maior apelo comercial dos filmes que contam esse grande ator no elenco, a Argentina tem uma produção cinematográfica consistente e diversificada, que nos premia, todos os anos, com excelentes longas metragens. Infelizmente, o alcance desses filmes nas nossas salas de cinema é muito limitado. Os filmes argentinos mereciam mais espaço e mais público.
Paulina, por sua vez, é um filme competente, que não decepciona em termos de qualidade cinematográfica. Baseado no romance de Eduardo Borrás, que assina o roteiro juntamente como Mariano Llinás, Santiago Mitre e Daniel Tinayre, e dirigido por Santiago Mitre, Paulina trata de um tema polêmico com uma abordagem pouco convencional, por vezes perturbadora. Se, em um primeiro momento, o tema do filme parece ser o conflito das visões de mundo entre pai e filha – aquele é um juiz experiente, de esquerda, que acredita que as mudanças sociais se constroem em ações práticas no dia-a-dia da profissão, ela é uma jovem advogada de carreira supostamente promissora, que resolve abandonar toda a sua vida em Buenos Aires, para tornar-se professora rural em um projeto social de formação política de jovens em escola pública em sua cidade natal, na província de Missiones -, logo percebemos que o fato central da trama será o estupro da jovem professora e como esse acontecimento influenciará as escolhas da jovem Paulina e sua relação com o pai. Aquilo que o pai havia definido, cinicamente, como “sonhos de uma mochileira” se torna um pesadelo vivido por Paulina e por aqueles que a cercam.
A partir do ponto de virada da trama, o estupro, Paulina deixa de ser o drama político do primeiro ato e transforma-se em um drama psicológico ao mesmo tempo instigante e perturbador, intenso e ofensivo, esclarecedor e incômodo. Com excelentes atuações de Dolores Fonzi, quem expressa o misto de desespero e convicção de Paulina em relação a suas escolhas, e Oscar Martinez no papel de Fernando, o pai, quem transmite todas as contradições de um esquerdista reformado, um pouco cínico, mas que não se tornou um conservador, o filme fundamenta-se na interação entre os dois personagens e no conflito de opiniões sobre as escolhas a serem feitas. Sem dúvidas, os diálogos entre pai e filha são o grande ponto forte do roteiro.
A montagem de Paulina também contribui para a narrativa e para o desenvolvimento dos personagens, ao utilizar-se da quebra da cronologia, que narra os mesmos fatos de pontos de vista de diferentes personagens: o de Paulina, o do pai e o dos estupradores, não necessariamente nessa ordem. Assim, é possível para o espectador compreender as motivações dos personagens, sem condescendência e sem justificar os atos de cada um. A narrativa, portanto, é tridimensional, e o espectador faz a sua escolha moral sobre aquilo que vê na tela. Em alguns momentos, é possível que nos flagremos concordando com atitudes absolutamente condenáveis por mera empatia com uma suposta necessidade de vingança, por exemplo, ou, quem sabe, tentando justificar as motivações dos criminosos. O que certamente não acontece após a projeção de Paulina é permanecermos indiferentes – o filme nos provoca reflexões e nos faz pensar sobre nossas escolhas naquela situação.
Santiago Mitre faz um bom trabalho de direção, muito bem apoiado pela fotografia de Gustavo Biazzi, que constrói aquele ambiente desolado com um excelente jogo de câmeras e consegue, ao mesmo tempo, demonstrar o isolamento no espaço aberto e angústia da companhia no espaço fechado, em paralelo ao sentimento dos personagens. Com simplicidade e eficácia, o filme é tecnicamente competente e visualmente bonito, apesar da feiura das paisagens daquela cidade miserável. Há beleza mesmo nos ambientes internos dos casebres da população pobre.
Paulina é um filme ousado em sua abordagem temática, sem ser visualmente pretensioso, e alcança seus objetivos de forma eficaz, ao levar o público a refletir sobre a miséria, o machismo, a falta de acesso à educação, a hipocrisia, a liberdade de escolha da mulher e o feminismo. No diálogo mais importante do filme, Paulina afirma que “não me adianta de nada me sentir vítima”, uma fala forte, que leva a um desfecho intenso. Uma afirmação que fica em nossa mente muitas horas depois da projeção. Um filme memorável, mas perturbador, que, infelizmente, será menos visto do que deveria.por Maurício Costa

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