COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ (2016) – CRÍTICA
Gênero: Drama
Direção: Thea Sharrock
Roteiro: Jojo Moyes
Elenco: Ben Lloyd-Hughes, Brendan Coyle, Charles Dance, Emilia Clarke, Janet McTeer, Jenna Coleman, Matthew Lewis, Sam Claflin, Stephen Peacocke, Vanessa Kirby
Produção: Alison Owen
Fotografia: Remi Adefarasin
Montador: John Wilson
Trilha Sonora: Craig Armstrong
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 16/06/2016 (Brasil)
Distribuidora: Warner Bros.
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema] 

Sinopse: Will (Sam Claflin) é um garoto rico e bem-sucedido que sofre um acidente e fica preso a uma cadeira de rodas. Depressivo, ele contrata Louisa Clark para cuidar dele, uma menina do campo que pode mudar suas perspectivas.
Nota do Razão de Aspecto:

Não tenho nada contra o melodrama. Acredito que se trata de uma característica inerente à condição humana, a qual pode ser representada na literatura e no cinema de formas mais ou menos competentes. Para ser melodramático, um filme não precisa, necessariamente, fazer mal uso dos clichês do gênero. E não, não sou condescendente com obras de baixa qualidade. A base da formação do meu gosto audiovisual, quando criança, foram as telenovelas, as ótimas e as péssimas, e os filmes da TV aberta, para, somente mais tarde, ter a oportunidade de acessar a obras mais sofisticadas, graças à TV a cabo, por exemplo, e ao cinema, que comecei a frequentar assiduamente nos anos 1990. Esta introdução é necessária para deixar claro que as avaliações que farei de Como Era Antes de Você não são baseadas em nenhum preconceito com gênero do filme.

Adaptado do romance homônimo de Jojo Moyes, quem também assina o roteiro, e dirigido por Thea Sharrock, Como Era Antes de Você é um filme que, à primeira vista, trata de uma bonita história de amor entre Louise Clark (Emilia Clark), uma jovem de gosto extravagante, que ainda e está encontrando na vida,  e Will Traynor (Sam Claflin), um jovem de família aristocrática, atlético, bonito, que fica paraplégico após um atropelamento. Lou é contratada pela família para cuidar de Will por seis meses, e ambos desenvolvem uma relação que modificará para sempre os rumos de suas vidas. Se, aparentemente, temos a fórmula de uma espécie de Teoria de Tudo sem Stephen Hawking, felizmente, a jornada dos personagens nos reserva algumas surpresas positivas, ao tratar de dilemas éticos importantes e sérios e ao evitar opções narrativas fáceis apenas para agradar ao público médio.
O filme tem uma fotografia que destaca o trabalho da direção de arte e do figurino ao opor a pela de cores quentes das paisagens e das roupas extravagantes de Lou a uma paleta de cores frias ao mundo de Traynor, a qual, aos poucos, progride para uma paleta de cores mais próximas à de Lou, à medida que a relação dos personagens se desenvolve. Por outro lado, a extravagância de Lou é retratada de forma relativamente exagerada, quase sempre como um grito de “sou diferentona” materializado nas roupas, nos sapatos, na decoração do quarto, no guarda-chuva e nas suas atitudes atrapalhadas.
Infelizmente, a direção de Thea Sharrock falha em levar o público à empatia completa com os personagens. O sofrimento de Traynor é quase sempre informado pelo diálogo, mas nunca é mostrado de forma impactante na tela. Mesmo o clichê do deficiente que procura assustar os cuidadores imitando o clássico Meu Pé Esquerdo é utilizado de forma incidental, mal interpretado por Sam Claflin, e, depois, desaparece, tornando-se uma mera piada referencial. Como Era Antes de Você teria um efeito mais forte no público se usasse apenas um pouco mais no desenvolvimento do personagem de Traynor.
Emilia Clark faz uma interpretação competente e convincente, ao nos apresentar uma personagem confusa, de origem humilde, atrapalhada, extravagante e de bom coração – muito diferente de Daenerys, em Game Of Thrones-, o que contrasta com a atuação fria de Sam Claflin, pouco convicente, e atrapalha o resultado final daquela relação. Em parte, pode ter sido problema de direção de atores, porém, pareceu-me evidente que o ator não tinha muitos recursos para interpretar o sofrimento contido do personagem. Falta profundidade seja nos momentos de júbilo, seja nos momentos de tristeza, o que diminui a intensidade do envolvimento do público com a relação do casal.
O roteiro, por sua vez, também tem alguns problemas. Alguns personagens são caricatos e unidimensionais, como Patrick (Mathew Lewis), namorado de Lou, quem faz o papel de alívio cômico, que nunca funciona devidamente, mas também a função dramática de indicar certa oposição entra o egoísmo de Patrick e o altruísmo de Lou, que se acaba tornando inútil pela comicidade forçada do personagem. Como ponto forte, o roteiro introduz um dilema ético importante de forma, digamos, leve, e trata de um tema polêmico em termos palatáveis para o público médio.
Como Era Antes de Você  funciona razoavelmente bem como romance, é melodramático na dose certa, faz os corações mais sensíveis chorarem e comove o público geral. Com um tom adulto de A Culpa é das Estrelas e um tom um pouco menos pesado dos que Eu, Você e a Garota que vai Morrer, trata-se de um filme competente, que alcança grande parte dos seus objetivos, agradável para o público, mas que não tem características que o tornem memorável.
PS: Fãs de Game of Thrones vão gostar de ver Charles Dance (Tywin Lannister) e Emilia Clark contracenando, embora isso nada tenha que ver com este filme.
 
por Maurício Costa
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