CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL


Gênero: Ação
Direção:  Anthony Russo, Joe Russo
Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Nota do Razão de Aspecto:
Elenco:  Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Chadwick Boseman,  Daniel Brühl, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Emily VanCamp, Frank Grillo, Jeremy Renner, Martin Freeman, Paul Bettany, Paul Rudd,  Tom Holland, William Hurt
Produção: Kevin Feige
Fotografia: Trent Opaloch
Montador: Jeffrey Ford
Trilha Sonora: Henry Jackman
Duração: 146 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 28/04/2016 (Brasil)
Distribuidora: Walt Disney Pictures
Estúdio: Marvel Entertainment / Marvel Studios


Nota do Razão de Aspecto:


O que têm em comum Carey Mahoney, protagonista dos primeiros filmes “Loucademia de Polícia”, John McLane, personagem principal da franquia “Duro de Matar” e Alex Murphy, o homem que se tornaria Robocop? O que une C.D.Banes, de “Roxanne”, Stephen ‘Bull’ McCaffrey, de “Cortina de Fogo” e Pete Sandich, de “Além da eternidade”?  As respostas são bem fáceis: no primeiro caso, os personagens são policiais; no segundo, são todos bombeiros. Ainda assim, ninguém fala em “filme de policial” ou “filme de bombeiro” como gênero cinematográfico. Aliás, falamos, sim, em filme policial. Mas o que caracteriza esse tipo de obra não é a profissão de seus personagens principais.

É, assim, decepcionante ver um cineasta do calibre de Steven Spielberg afirmar que os “filmes de super-heróis” (sic) estão condenados a morrer, como aconteceu com os filmes de faroeste. Spielberg falou bobagem, especialmente por que não existem “filmes de super-heróis”, como gênero, e sim filmes com super-heróis.  

“E nós, West? Somos o quê?”

Ter personagens dotados de super poderes como protagonistas não implica realizar sempre o mesmo gênero de filme. A menos que se queira colocar um thriller político como “Capitão América: o Soldado Invernal” no mesmo pacote de uma comédia de ação como “Kick Ass”, um drama policial como “Demolidor” (que é série de TV, mas vale como exemplo) e uma ficção científica como “X-Men”. O máximo que se pode fazer é chamá-los todos de “filmes de ação”, e esses estão bem longe do ocaso. 

“Capitão América: Guerra Civil” segue a linha de seu antecessor, mas com maiores dimensões e sem tanta semelhança com as produções da década de 1970. O filme tem infinitamente mais qualidades do que defeitos, e dá continuidade aos questionamentos de Steve Rogers (Chris Evans, cada vez mais à vontade) sobre a relação entre o que o(s) governo(s) espera(m) de um ícone como o Capitão América, e os caminhos seu instinto de justiça o apontam.

Embora os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely (que coescreveram os filmes anteriores do Capitão, além do segundo “Thor” e da franquia “Crônicas de Nárnia”) tenham tentado centrar o filme no arco de Rogers, é impossível não se sentir, em vários momentos, assistindo a uma sequência de “Vingadores: a Era de Ultron”. Neste filme, após um incidente na Nigéria que deixa vítimas inocentes, a ONU decide que os Vingadores não devem mais atuar sem a permissão e a supervisão internacional, e, para isso, propõe a assinatura dos “Acordos de Sokovia” (em referência ao país destruído no último filme do grupo de heróis). Quem lidera a iniciativa nos Estados Unidos é o General Ross, já conhecido no universo da Marvel no cinema (MCU) como antagonista do Hulk, no filme de 2008. 
A proposta dos Acordos divide os heróis: sentindo-se culpado, Tony Stark (Robert Downey Jr.) e seus amigos mais próximos optam por respeitar a nova lei. Incomodado com as limitações que eles possam causar, e já calejado pelos rumos que a SHIELD tomara em “Soldado Invernal”, o Capitão América se recusa a assinar o documento, e sua posição será ainda mais radicalizada após seu antigo parceiro Bucky (Sebastian Stan) ser acusado de um atentado a uma das sedes da ONU.
O que temos, a partir daí, é a formação de dois grandes grupos que entrarão em conflito, enquanto um misterioso Helmut Zemo (Daniel Brühl) busca informações sobre uma determinada missão russa do passado. 
Para os fãs, é um prazer ver na tela heróis de diversos filmes anteriores interagindo. Juntam-se ao Capitão América, além de Bucky, o Falcão (Anthony Mackie), o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) saído da aposentadoria, o Homem-Formiga (Paul Rudd) e a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), apoiados por Sharon Carter (Emly VanCamp), sobrinha do interesse amoroso de Rogers durante a II Guerra. O Homem de Ferro reúne a Viúva Negra (Scarlett Johansson), o Máquina de Combate (Don Cheadle) e o Visão (Paul Bettany). Ele ganha, ainda, o reforço de dois estreantes nas telas do MCU:  o Pantera Negra (Chadwick Boseman) e um jovem escalador de paredes, o Homem-Aranha (Tom Holland), finalmente de volta aos estúdios Marvel graças a um acordo com a Sony.
Os diretores Anthony e Joe Russo, que já haviam sido responsáveis pelo filme anterior do Capitão, repetem o bom trabalho – em especial frente ao desafio de lidar com uma quantidade enorme de personagens. Todos tem um tempo de tela digno, e suas pequenas subtramas fazem com que não pareçam apenas peões genéricos em um dos lados do conflito. Não há, é claro, tempo para grandes arcos para cada um esses personagens – o que, de certa forma, é bem aproveitado pelo filme, dando mais tempo para o Capitão, para Bucky e para o Pantera – único personagem até então desconhecido para o público que acompanha apenas o MCU. 
O Zemo do filme é completamente diferente – em visual e em motivação – do seu contraparte nos quadrinhos, o que pode incomodar bastante os puristas (até porque, não havia a menor necessidade de usar o nome consagrado em um personagem tão diferente). Para compensar essa grande alteração, Daniel Brühl é, cada vez mais, garantia de boa interpretação, e, em “Guerra Civil”, não é diferente:  seu Zemo é inteligente e trágico, e tem motivações doloridamente intensas.

É justamente na questão das motivações que o roteiro tem seus pecadilhos: o que poderia ser uma discussão sobre controle versus liberdade, sobre ideologias distintas frente a uma determinada decisão política, acaba caindo quase que exclusivamente para o lado pessoal – e o que provocará  o último conflito entre os protagonistas era completamente dispensável para a trama. Tony Stark tem, ao longo do filme, pelo menos três motivações pessoais para justificar sua participação no projeto da ONU, o que soa redundante. Ademais, o recurso de envolver traumas familiares como motivação para personagens – mesmo se levado em conta o fato de que o mesmo acontece nos quadrinhos – já está esgarçado há algum tempo.

Outro ponto fraco é Scarlett Johansson (sim, meninos, eu sei que ela é linda): a atriz padece do mal de ser maior que suas personagens, o que faz com que seja difícil ver Natasha Romanoff na tela. Como agravante, Johansson não convence muito nas cenas de ação, e chega a ser quase constrangedor, especialmente no início do filme, ver que é claramente uma dublê lutando. 
Por outro lado, Boseman está espetacular:  como filho do Rei de Wakanda, ele transmite o olhar de respeito e aprendizado; como Pantera Negra, guardião ancestral de sua nação na África, ele incorpora os movimentos ágeis, suaves e perigosos de um felino. Ao final do filme, cumprido seu arco, temos nele o personagem mais sábio entre todos os envolvidos. Sua presença em “Guerra Civil” preparou com perfeição seu filme solo, programado para fevereiro de 2018. 
E o Homem-Aranha?  Bem, a primeira coisa a se dizer é que a Marvel comprova que entende de seus personagens muito melhor do que a Sony. Peter Parker é, aqui, apenas um adolescente que ganhou seus poderes há seis meses, completamente inexperiente – mas ao mesmo tempo muito poderoso – e deslumbrado pela possibilidade de conhecer e lutar, contra e ao lado de ídolos como o Homem de Ferro e o Capitão América. Embora eu não seja o maior entusiasta em apresentá-lo numa versão tão jovem, a participação do herói no filme é divertida e carismática, e deixa a certeza de que os filmes solo do personagem estão em boas mãos.
Entretanto, do ponto de vista exclusivamente narrativo, a entrada dele na trama de Guerra Civil é um tanto ex machina e pouco orgânica, e é um dos únicos momentos em que o ritmo do filme dá uma engasgada. Os fãs, imagino, não estão nem aí para esse problema.

O mais impressionante, creio, é a habilidade com que a Marvel está conseguindo costurar suas tramas. A ausência de Thor e Hulk, já imaginada pelos fatos ocorridos em “A Era de Ultron”, é bastante apropriada para manter o conflito deste filme mais factível e contido. O interesse de Wakanda nas ações dos Vingadores foi igualmente plantado naquele filme, enquanto o interesse do General Ross em controlar as ações dos super poderosos remete a sua experiência com o Hulk. Até mesmo a relação entre Hank Pym e Howard Stark, mostrada em “Homem-Formiga”, tem seu papel na participação do diminuto heroi no conflito entre o Capitão e o Homem de Ferro.
Ao final, mais do que saber a qual gênero pertence um filme, é fundmental saber se a obra é boa. Nesse sentido, “Guerra Civil” é mais um acerto da Marvel, que segue mantendo um alto padrão médio de qualidade, mesmo com alguns deslizes (alguém falou em Iron Man 3?pelo caminho. No conflito entre os conflitos de DC e Marvel deste ano, o round, por pontos, é da casa do cabeça-de-teia.

Notas: 
– há duas cenas extras após o final do filme (e reparem a “participação” do Brasil na primeira delas;
– sim, Stan Lee tem seu “cameo”;
– Martin Freeman está competindo com Simon Pegg para ver quem faz parte de mais franquias, aparentemente…

por D.G.Ducci

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