O DONO DO JOGO (2016) – CRÍTICA
 
 
Gênero: Drama
Direção: Edward Zwick
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Aiden Lovekamp, Alexandre Gorchkov,
Bobo Vian, Brett Watson, Conrad Pla, Edward Zinoviev, Evelyne Brochu, Igor
Ovadis, Joe Cobden, Katie Nolan, Liev Schreiber, Lily Rabe, Michael Stuhlbarg,
Peter Sarsgaard, Robin Weigert, Seamus Davey-Fitzpatrick, Shawn Campbell,
Sophie Nélisse, Tobey Maguire, Vitali Makarov
Produção: Edward Zwick, Gail Katz, Tobey
Maguire
Fotografia: Bradford Young
Montador: Steven Rosenblum
Trilha Sonora:
James Newton Howard
Duração: 115
min.
Ano: 2014
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 28/04/2016 (Brasil)
Distribuidora:
PlayArte
Estúdio: Gail Katz Productions / Material Pictures / MICA
Entertainment / PalmStar Media
Sinopse: Biografia
romantizada de Robert “Bobby” James Fischer, o lendário e problemático gênio
americano do xadrez que, em plena Guerra Fria, enfrenta a hegemônica escola
soviética, culminando no match pelo título mundial contra Borris Spassky.

 

Nota do Razão de Aspecto:
————————————————————————————————————————-

 

Imagine a história de um homem que dedica sua vida a
sua paixão e, devido a seu inegável talento, consegue superar o insuperável. Um
americano que, pela iniciativa individual e genialidade, desafia a fria e metódica
escola soviética.Imagine a história do gênio perturbado, de alguém com
inteligência enorme e disfuncional, que, devido a sua enorme capacidade de análise, consegue alcançar níveis de genialidade únicos, mas que paga o preço de lidar
com suas próprias neuroses, ilusões e sucumbe a seus fantasmas.Imagine também a história de um garoto prodígio, um
competidor brilhante, mas imaturo, que é arremessado a uma roda de adversários
sem a devida preparação esportiva e psicológica, e que acaba sucumbindo a seu
próprio sucesso e  se tornando o maior
inimigo de si mesmo, enquanto a mídia e o governo se aproveitam de seu sucesso.

Estas três histórias são a história de Bobby Fischer,
o maior enxadrista da história do Estados Unidos, e talvez o maior de todos os
tempos. O desafio então enfrentado por Edward Zwick (“Diamante de
Sangue”, “O último samurai”) era como transformar a mais exótica e
controvertida biografia da história do xadrez em uma narrativa palatável e
acessível ao público que não sabe o que significa uma Defesa Índia do Rei.
Apesar de todo o lado épico de Bobby Fischer, explicar sua genialidade para
quem não conhece e talvez nem se interesse por xadrez pode ser similar a
explicar uma pintura para um cego.

A solução encontrada por Zwicky funciona, até certo
ponto. O filme não é um filme sobre xadrez, não é um filme sobre a genialidade
de Bobby Fischer, mas, sim, um filme sobre o lado humano do enxadrista, sua
instabilidade, a relação conturbada entre o jogador, o público americano e
as duas superpotências e sobre como a carreira vitoriosa de Bobby Fischer representou uma gigantesca vitória de Pirro.
Neste ponto, o significado do título original (“Pawn
Sacrifice”, Sacrifício de Peão) se perde um pouco com a tradução. Fischer
sacrifica o que considera “coisas menores” de sua vida em nome da “verdade
enxadrística”. Como dizia Lasker (outro campeão de xadrez), a verdade do
xeque-mate sempre prevalece no final. Fischer vivia por esta máxima. E também
no tabuleiro de xadrez geopolítico, a estabilidade emocional de Fischer foi
sacrificada para que os Estados Unidos colocassem em xeque a propaganda soviética.A escolha de Tobey Maguire (o Peter
Parker/Homem-aranha da primeira trilogia) como Bobby Fischer com certeza soou
estranha para a maioria dos fãs de xadrez. Era meio difícil imaginar um
baixinho, bem apessoado e sorridente Peter Parker no lugar do corpulento e ameaçador
nerd, de olhos penetrantes e 1,85 metros de altura que foi Fischer. Sua presença
física intimidadora fazia parte de sua aura de invencibilidade. Mas Tobey compensa
a diferença de  estatura com o tom certo
de energia paranóica, dando uma aura de imprevisibilidade e violência psíquica
que esperamos de um Bobby Fischer. Ele não era um grande mestre, e sim uma
tempestade perfeita no horizonte.

Já na escolha de quem iria fazer Boris Spassky, Liev Schreiber talvez tenha
sido escolhido não só pela qualidade, como também pela semelhança física.
Infelizmente,  porém, visto que o filme
preferiu, por motivos dramáticos compreensíveis, transformar Spassky na nêmesis
soviética de Fischer, os adversários soviéticos que dariam personagens mais
interessantes ficaram de fora (Tal, Petrossian e Botvinnik, por exemplo, são
personagens mais cinematográficos, na minha opinião). Spassky é um “soviético
genérico” e não causa nenhum envolvimento com o público. Contudo, seria difícil
em um filme de duas horas apresentar a constelação de grandes mestres soviéticos
da época.

Talvez por falta de um antagonista, o filme opta por
exagerar um pouco o papel de Marshall (interpretado por Michael Sthulbarg, de
Hugo) e do governo americano, mas isto também é insuficiente para criar algum
oponente externo a Fischer. Não “torcemos contra” ninguém no filme, e
muitas vezes a descendente psicológica de Fischer não é suficiente para manter
o drama. Nota-se essa insuficiência inclusive pela inclusão de tramas e personagens desnecessários,
como a questão da perda da virgindade.Isto fica ainda mais claro no clímax do filme, que
funciona como “fan service” para enxadristas como eu, ao ver os movimentos e
momentos do “match do século” (como ficou conhecido o match entre Spassky
e Fischer) sendo reproduzidos em detalhes, mas, para quem não joga xadrez é uma, longa e arrastada sucessão de closes, expressões faciais, poucos diálogos e
pouca ação ou drama. Não é desastroso, mas é lento, e um tanto repetitivo.Vale ainda comentar como pontos altos do filme a
excelente trilha sonora, a reconstituição de época, em especial nos figurinos,
e o ótimo personagem secundário Bill Lombardy, mestre de xadrez e amigo íntimo
de Fischer, interpretado por Peter Sarsgaard (de “A chave mestra” e “Lanterna
Verde”).

 

Para os aficionados por xadrez e Bobby Fischer (como
eu), um excelente entretenimento e um retrato mais fiel do que o esperado do
campeão mundial mais conturbado da história. Só ver o bispo encurralado da
primeira partida do match sendo mostrado sem explicações desnecessárias já me
valeu um sorriso. Se você sabe o que é uma Defesa Índia do Rei, sinta-se a
vontade em colocar mais uma estrela na avaliação do filme. Para os demais, um
filme interessante sobre um gênio falho, mas uma narrativa um tanto arrastada,
e com um clímax um tanto sem sentido e longo demais.Por Aniello Greco.
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