NETFLIXING: BETTER CALL SAUL – SEGUNDA TEMPORADA – SÉRIES E TV
Better Call Saul é um dos melhores lançamentos originais da Netflix nós últimos anos, juntamente com Stranger Things e Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar.
 
 
Leia a ficha técnica aqui
Nota do Razão de Aspecto:
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Depois do estrondoso sucesso de Breaking Bad, a produção de um spin off, embora fosse desejada pelos fãs de Walter White “e sua turma”, tinha muitos motivos para fracassar: a expectativa do público seria imensa, a nova série poderia ter dificuldades de encontrar o tom narrativo próprio dentro daquele universo, tudo poderia parecer um pouco requentado e aparentar ser nada mais do que uma imitação caça-niqueis da série que lhe deu origem. Poderia. Felizmente, possibilidade não é verdade absoluta, e Better Call Saul não somente evitou todas essas armadilhas, como também se tornou uma narrativa com sustentação própria, que funciona mesmo para aqueles que, por alguma razão inexplicável, ainda não assistiram Breaking Bad.
A estrutura narrativa de Better Call Saul concentra-se na jornada do protagonista Jimmy McGill (Bob Odenkinrk), o futuro Saul Goodman, e de Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), desde sua chegada a Albuquerque. Assim, Better Call Saul faz um belo estudo de personagens, ao narrar as origens, as razões, os dramas e as tragédias pessoais dos nossos (anti)heróis.  Este é o maior mérito da série: se os fãs de Breaking Bad já sabem aonde a jornada dos dois personagens chegará, aqueles que começaram por Better Call Saul acompanham uma trama que incita a curiosidade, cria empatia entre espectador e personagem e faz que o público se importe com o destino daquelas pessoas. O roteiro destaca-se como o ponto mais forte do seriado tanto na primeira quanto na segunda temporadas, o que não é fácil, considerando que Better Call Saul mantém alto nível em todos os quesitos.
Na segunda temporada, continuamos acompanhando a perda da inocência de Jimmy – e não de sua honestidade, qualidade que nunca foi seu forte – e o crescimento da tensão no relacionamento com seu irmão mais velho, perturbado por um distúrbio, digamos, pouco convencional,  Chuck McGill – um renomado advogado no Novo México. Além disso, testemunhamos o desenvolvimento da relação entre Jimmy e a bela Kim Wexler (Rhea Seehorn) e as diferenças de visão de mundo do casal.  Jimmy é um personagem complexo, construído e desenvolvido de forma multidimensional. O conflito entre a suposta natureza de Jimmy e as suas circunstâncias resultarão, em algum momento, em Saul Goodman – o advogado picareta, desonesto e caricato de Breaking Bad, entretanto, esse percurso não está sendo construído de forma óbvia e preguiçosa. Jimmy não é Saul, Saul não é Jimmy: Better Call Saul tem indicado que Saul Goodman nascerá de um processo muito mais trágico do que cômico, em um universo onde ninguém é inocente até que se prove o contrário.
 

Paralelamente, Mike Ehrmantraut destaca-se como o elo entre Jimmy e o mundo do crime – não que Jimmy seja um cidadão honesto, corrompido pelo poder: trata-se de um malandro, um trambiqueiro de pequenos golpes, que, com muito esforço, se torna advogado e tenta impressionar o irmão brilhante, porém rancoroso e vingantivo, no mundo da advocacia corporativa. Embora o cruzamento das jornadas individuais não tenha sido a ênfase das duas primeiras temporadas, certamente constitui a linha que conduz a narrativa ao ponto em que Breaking Bad começa a contar a jornada de Walter White.Em Better Call Saul, Mike é um homem essencialmente honesto, que, por circunstâncias que não revelarei, foi expulso da polícia e perdeu o filho, não necessariamente nessa ordem (descubra você mesmo!). Além de avô amoroso, Mike ainda não se tornou o homem violento e brutal da série original e luta para não se entregar completamente ao mundo do crime, o que, como todos sabemos, será inevitável. A complexidade de Mike, o seu ressentimento e a calma ameaçadora mostram um personagem em conflito moral e ético, cuja multidimensionalidade faz da atuação de Jonathan Banks a melhor da temporada. Não exagero ao afirmar que merece uma indicação ao Emmy.

Para além do roteiro, do rigoroso e competente trabalho de direção e das atuações, a série é tecnicamente quase perfeita. O trabalho de montagem dos episódios, muito bem discutido aqui pela Indie Wire, constrói, visualmente, a jornada interior dos personagens, apoiada por um design de produção competente em cada detalhe, por uma fotografia que privilegia as cores saturadas do cenário do Novo México – o que, por vezes, revela um tom onírico e, outras vezes, um tom de parque temático no deserto (sei que parece uma afirmação estranha, mas, acreditem, faz sentido), um figurino excêntrico, porém típico daquele universo, sempre refletindo o estado de humor dos personagens, e por uma trilha sonora que varia entre o nostálgIco, o melancólico, e o caricato, com rock, country e música mexicana.
Para os fãs de Breaking Bad, Better Call Saul é um achado. Cheia de easter eggs, os fãs de Walter White reencontram-se com alguns personagens queridos, e outros nem tanto, e podem encontrar respostas para as origens de algumas peças-chave do original, como a família Salamanca, os gêmeos e o cartel.  Para aqueles que iniciarão a jornada com Jimmy McGill, Better Call Saul traz uma premissa instigante, cujo desfecho é anunciado, mas que, ao mesmo tempo, prende a atenção do espectador, cria empatia com os personagens e hipnotiza visualmente.
Como prequel, Better Call Saul tem seu lugar ao lado de Breaking Bad, sem nenhum grau de exagero. A série é tão eficiente que nos faz sentir como, muitas vezes, nos sentimos na vida real: sabemos que o caminho está errado, sabemos aonde nossas escolhas nos levarão, mas, mesmo assim, seguimos firmes a trilha da tragédia, como se fosse impossível evitá-la. Saul Goodman, ou Jimmy McGill, que o diga.
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