Gênero: Suspense, Ficção Científica
Direção: Dan Trachtenberg
Roteiro: Damien Chazelle, Josh Campbell, Matthew Stuecken
Elenco: Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr., Bradley Cooper, Cindy Hogan, Jamie Clay,  Mat Vairo
Produção: J.J. Abrams, Lindsey Weber
Fotografia: Jeff Cutter
Montador: Stefan Grube
Trilha Sonora: Bear McCreary
Duração: 103 min.
Ano: 2016
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 07/04/2016 (Brasil)
Distribuidora: Paramount Pictures Brasil
Estúdio: Bad Robot / Paramount Pictures / Spectrum Effects
Classificação: 14 anos



Nota do Razão de Aspecto:

“Rua Cloverfield,
10” é dos filmes mais interessantes deste ano sob o aspecto de divulgação e do marketing. Provou que, mesmo na era da internet, um filme pode passar
desapercebido e ser filmado quase em completo segredo, mesmo carregando a marca
“Cloverfield”. Difere muito da maioria dos blockbusters, que tentam a todo
custo gerar um grande hype com meses, ou às vezes anos de expectativa. Neste caso,
parte da obscuridade se deve ao fato que o roteiro originalmente não tinha
nenhuma relação com “Cloverfield”, tendo como nome apenas “The Cellar”. 

E isto explica muito do
filme. Apesar do título, “Rua Cloverfield, 10” não é uma continuação, nem um
prequel, nem mesmo um spinoff de “Cloverfield”. Não usa de narrativa found
footage
, e nada indica no filme que qualquer coisa similar a um monstro gigante
atacando New York tenha acontecido em algum passado próximo.

J. J. Abrams, produtor
do filme, diz que o filme é um “parente de sangue” do Cloverfield
original. O melhor que posso entender disto é uma leve similaridade no tema, e
alguns easter eggs presentes. A ligação entre os dois filmes é menor do que, por
exemplo, a ligação entre os filmes da “trilogia cornetto”.

Bom,
já deu
para entender o que o filme não é… Mas afinal, o que é “Rua Cloverfield, 10”?

O
filme começa
com Michelle (Mary Elizabeth Winstead, de Scott Pilgrim vs the World) sofrendo
um acidente de carro, perdendo a consciência e acordando acorrentada no abrigo
contra bomba de Howard (John Goodman, de “Argo” e “O Grande Lebowski”), um veterano da
Marinha e fanático por teorias de conspiração. Howard explica a Michelle que um
ataque aconteceu e o ar está contaminado, e ela terá que ficar no abrigo por “um
ou dois anos” se quiser continuar viva. Howard, contudo, não consegue sequer
esclarecer a natureza do ataque. Pouco mais tarde, Emmet (John Gallagher Jr.,
de “The heart machine”) se junta aos
dois sobreviventes. Emmet forçou sua entrada no bunker, quebrando o braço no
processo, após, segundo ele, “ter visto um clarão”.
O
filme segue sob o ponto de vista de Michelle: ela e o espectador têm de
descobrir o que realmente aconteceu, e quais as verdadeiras intenções de Howard.
Trata-se, portanto, de um filme de “síndrome da cabana”, onde pessoas sem relação
entre si se veem forçadas a conviver confinadas, devido a uma (no caso, suposta)
ameaça externa. E, como um bom filme de confinamento, os conflitos entre os
personagens acabam por levar a sobrevivência para um nível intolerável.
É
nisto
que o filme demonstra sua excelência. John Goodman consegue dar uma ambiguidade
a Howard, um misto de tristeza e paranóia, que faz com que nós, durante boa
parte do filme, não consigamos saber se devemos contar com ele como aliado ou
inimigo. À medida que cada pista e nova informação é descoberta por Michelle,
temos que rever quem é Howard e se ele é uma ameaça maior ou menor do que quer
que esteja lá fora. A perplexidade de Elizabeth diante da situação absurda e
vulnerável que ela se encontra nos deixa em constante tensão, e a construção da
suspense sobre o que realmente está acontecendo é conduzida com a devida calma,
com o devido crescendo, acumulando uma corrente subterrânea de algo estranho e
desagradável até um clímax inevitável, e, ao mesmo tempo, previsível mas insólito.
Excelente!
Mas o filme dura mais 10 minutos. 
E nestes 10 minutos é que
vemos finalmente o “parentesco de sangue” com “Cloverfield”. Um parentesco de
sangue colado a cuspe, desconexo, artificial. Não que sejam 10 minutos mal
filmados ou ruins por si, apenas parecem ter vindo de outro filme, de outra
realidade, de outra dimensão. Não se trata de um clímax, anticlímax, ou
desfecho ruim. É pior do que isto, parece que simplesmente não deveria estar lá.
É como se no final de “Rocky, o lutador” descobríssemos que Apollo Creed usava
esteróides anabolizantes. A sensação que fica no final é apenas da falta de necessidade.
Um
dos melhores filmes de “síndrome da cabana” que já vi, se eu conseguir apagar
10 minutos da minha memória. Mas ainda assim, quero vestir uma cortina de
banheiro vermelha com um pato amarelo. Aposto que haverá várias fantasias
assim no Halloween.

por Aniello Greco Jr.

  • Caramba! Como é bom descobrir que não fui só eu que achei que os 10 minutos finais simplesmente não deveriam ter sido filmados. Por que Hollywood tem sempre essa fixação de criar protagonistas com complexo de "salvador da Pátria"?

    • Não apenas a mudança da personagem, que parece que é possuída pelo espírito de John McLane. Mas além disto os duzentos elementos novos que não fazem a menor diferença, e uma encruzilhada que nada diz.

      O final do roteiro original era bem melhor.

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