Gênero: Drama
Direção: Win Wenders
Roteiro: Bjørn Olaf Johannessen
Elenco: James Franco, Rachel McAdams, Charlotte Gainsbourg, Marie-Josée Croze, Robert Naylor, Jack Fulton, Julia Sarah Stone, Patrick Bauchau, Peter Stormare, Julien Boissaud, Lilah Fitzgerald. 
Produção: Gian-Piero Ringel
Fotografia: Benoît Debie
Montador: Toni Froschhammer
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Duração: 115 min.
Ano: 2015
País: Alemanha / Canadá / França / Noruega / Suécia
Cor: Colorido
Estreia: 10/03/2016 (Brasil)
Distribuidora: Mares Filmes
Estúdio: Montauk Productions / Neue Road Movies
Classificação: 14 anos
Sinopse: escritor em crise criativa atropela criança e lida com os desdobramentos do fato por uma década. 
Nota do Razão de Aspecto:


Na primeira cena de “Tudo vai ficar bem”, novo longa de ficção do cineasta alemão Wim Wenders, uma imagem fora de foco é ajustada e mostra uma lata com lápis e um caderno de anotações. Na continuidade da cena, vários objetos em tons acobreados, com ferrugem, são mostrados e compõem o pequeno quarto onde Tomas Eldan, escritor vivido por James Franco, mantem-se isolado, em busca de vencer um bloqueio criativo.
Com essas sutilezas entre história e imagem, Wenders seguirá a história do escritor, que, além da crise de sua escrita, vive um relacionamento com Sara (Rachel McAdams), já com claros sinais de desgaste. Para piorar, já que desgraça não anda sozinha, Tomas se envolve em um acidente em que atropela uma criança. As consequências desse evento formam o fio condutor de um roteiro que se estende por uma década da vida do protagonista, dividindo o filme em quatro segmentos.

Cineasta com um talento incrível para filmar cidades (como a Berlim do citado “Asas do Desejo” ou a Lisboa de “O ceu de Lisboa” (Lisbon story, 1994), Wenders se alia desta vez ao fotógrafo Benoît Debie (de “Irreversível” e “Love”) para mostrar Montreal e a beleza natural do canadá francês. Cada um dos segmentos do filme corresponde a uma estação do ano, começando no inverno e terminando na primavera, todos eles fotografados de forma bela, com muitas cenas de enorme profundidade de campo, como que para mostrar a pequenez humana frente ao mundo.
As quatro estações do filme simbolizam a evolução do protagonista em seu arco dramático de lidar com a dificuldade de comunicação. No inverno que inicia o filme, Tomas tem dificuldades de escrita e de interação com a parceira. E não é por acaso que em uma das cenas principais do filme, Tomas tenta estabelecer um diálogo, por vários minutos de tela, sem receber qualquer resposta por parte do interlocutor.

Curiosamente, ele encontra em Kate (Charlotte Gainsbourg, a queridinha de Lars von Trier), mãe da criança atropelada, uma pessoa com quem a conversa flui com improvável naturalidade, mesmo que não se diga muito. Mas mesmo ela, mais para o meio do filme, também tenta comunicar suas ideias por meio de um livro que dá a Tomas, presente que é logo descartado.
O tema da dificuldade da comunicação não é novo para Wenders, e já foi mostrado, por exemplo, em suas obras-primas “Asas do Desejo” (Wings of Desire, 1987) em que anjos observam e se fascinam com o cotidiano humano, sem com ele poder interagir verdadeiramente, e “Paris, Texas” (em que a amnésia do protagonista é espelhada no próprio deserto texano). Aqui, essa dificuldade se apresenta em vários níveis, e a resposta oferecida por Wenders passa pela escrita – ainda que em nenhum momento o filme se concentre nesse tema específico.
Ao longo da história, Tomas melhora como escritor, ganhando fama – e é uma das chaves do filme o momento em que um personagem diz a ele que “seus livros não eram bons antes do acidente”. No auge da tortura interna, a escrita foi o meio encontrado para expressar tensões e questionamentos impossíveis de serem comunidados. Ao final do filme, na primavera, dez anos após o acidente, há uma luz de esperança de que a comunicação é possível – ainda assim, Wenders é sábio em retirar o espectador da conversa, testemunhada de longe, por uma janela.

O filme, entretanto, não vai agradar a boa parte da audiência: os elementos são apresentados de forma sutil; os arcos dramáticos, como na vida real, não são formulaicos e amarradinhos; e, a cada momento, o filme gera determinadas expectativas, apenas para abandoná-las. Assim, quando achamos que determinado romance vai acontecer, não acontece;  quando parece que o filme enveredará para o suspense (quando um fã obcecado por Tomas aparece), também não é esse o rumo escolhido. Wenders parece, com isso, querer causar, de propósito, uma dificuldade de comunicação que dá tema ao próprio filme. 
Ao final da projeção, a primeira reação poderá ser: “será que eu gostei desse filme?” ou “mas ele não chega em lugar algum!”. A dispersão é apenas aparente: as pistas e mensagens  estão lá, embora não tão óbvias. A recompensa, no entanto, é um belíssimo filme.

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