A BRUXA
Gênero: Terror
Direção: Robert Eggers
Roteiro: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Bathsheba Garnett, Ellie Grainger, Harvey Scrimshaw, Julian Richings, Kate Dickie, Lucas Dawson, Ralph Ineson, Sarah Stephens, Wahab Chaudhry
Produção: Daniel Bekerman, Jay Van Hoy, Jodi Redmond, Lars Knudsen, Rodrigo Teixeira
Fotografia: Jarin Blaschke
Montador: Louise Ford
Trilha Sonora: Mark Korven
Duração: 92 min.
Ano: 2015
País: Brasil / Canadá / Estados Unidos / Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 03/03/2016 (Brasil)
Distribuidora: Universal Pictures
Estúdio: Code Red Productions / Maiden Voyage Pictures / Mott Street Pictures / Parts and Labor / Pulse Films / Rooks Nest Entertainment / RT Features / Scythia Films / Special Projects
Classificação: 16 anos
Sinopse: Nova Inglaterra, ano de 1630. William e Katherine levam uma vida cristã com suas cinco crianças, morando á beira de um deserto intransitável. Quando o filho recém nascido deles desaparece e a colheita falha, a família se transforma em outra. Por trás de seus piores medos, um mal sobrenatural se esconde no bosque ao lado.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Já não é novidade para nenhum leitor que acompanhe o Razão de Aspecto a minha posição sobre a produção cinematográfica da indústria no gênero de terror. Com algumas poucas, e honrosas, exceções, Hollywood, infelizmente, tem investido em filmes formulaicos, simplistas, preocupados mais com o uso do CGI do que com a história e, para piorar tudo, baseados em sustos baratos, previsíveis e telegrafados. Gastam-se milhões de dólares por ano para produzir filmes de terror que não aterrorizam e que, em diversos casos, nos levam ao riso, tamanhas as soluções narrativas encontradas por roteiristas preguiçosos e produtores de gosto, digamos, duvidoso.
Felizmente, o cinema independente estadunidense tem cumprido a importante tarefa de ousar e inovar no gênero de terror, com resultados satisfatórios, em geral, e excelentes, em parte significativa das produções. Muitos desses filmes estão disponíveis na Netflix para os fãs de terror ou para os fãs do bom cinema, independentemente de gênero – cito como exemplo Somos o que Somos (2013), dirigido por Jim Mickle. A produção independente A Bruxa é a epítome dessa escola cinematográfica – e ouso defini-la como escola, porque tem caraterísticas próprias, mas este é um tema para outro texto.
Ambientado na Nova Inglaterra, em 1630, A Bruxa é um filme perturbador pela sua verossimilhança, que não é incidental: o mote da trama e todos os diálogos do filme são verdadeiros, extraídos de documentos e depoimentos de processos judiciais sobre bruxaria daquele período, devidamente interpretados em middle english. A pesquisa histórica resultou em um roteiro consistente, que sustenta sua premissa e jamais subestima o espectador – não temos tentativas frustradas de viradas, e os poucos “jump scares” estão milimetricamente posicionados para alcançarem o resultado perfeito.
O terror e o suspense de A Bruxa sustentam-se pela ambientação e pelo desenvolvimento da atmosfera de tensão do primeiro ao último segundo da projeção. Todos os fatores da produção contribuem para esse resultado: das atuações à direção de arte, com destaque para a trilha sonora de Mark Koven. A trilha nos remete à de trilha de Sangue Negro, mas com tom mais sombrio, que provoca uma tensão tão forte que, mesmo em momentos de silêncio, sentimos o mesmo incômodo e o mesmo medo dos personagens naquele ambiente hostil e isolado.
Surpreendentemente, um fator simples contribui sobremaneira para a atmosfera de terror: a voz de William (Ralph Ineson), o pai da família, parece vir diretamente das profundezas do inferno, em uma contradição completa com a natureza supostamente divina que o personagem atribui a ele mesmo. Somando-se a essa tenebrosa voz a fotografia sombria, de cores sempre frias, a trilha sonora e o design de produção, temos formado o ambiente sufocante e aterrorizante de A Bruxa.

 

Todas as atuações são irrepreensíveis, embora os personagens de Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawnson) tenham menos espaço – no momento chave, as duas crianças dão uma aula de interpretação infantil. A dinâmica ente William, a mãe Katherine (Kate Dickie) e protagonista Thomasin (Anya Taylor-Joy) é o que constrói a linha narrativa do filme, ao borrar os limites entre a verdade e a mentira, entre o sobrenatural e a loucura, entre o pecado e o desejo, entre a fé e a hipocrisia. Anya Taylor-Joy, especialmente, faz um trabalho consistente na construção de uma adolescente na puberdade-odiada pela mãe, desejada pelo irmão Caleb, em grande interpretação de Harvey Scrimshaw, e protegida pelo pai-, cheia de desejos contraditórios.
A Bruxa não é um filme simples e de fácil consumo. O primeiro ato é lento e exige paciência, mas a lentidão é justificada pela necessidade de criação da atmosfera tensa e apavorante, pelo estabelecimento da função narrativa de cada personagem e da razão que destabiliza aquele núcleo familiar. A partir da metade do segundo ato, a narrativa nos leva a uma das experiências mais incômodas e apavorantes que podemos ter, como se estivéssemos testemunhando algo proibido pela fresta de uma porta entreaberta, algo que não devíamos ver, que não queríamos ver, mas que, ao mesmo tempo, nos deixa paralisados assistindo a tudo que se passa, como que congelados pelo medo, ao mesmo tempo em que estamos excitados com os acontecimentos. Se você espera um filme cheio de sustos baratos e bruxas de cara feia, vai-se decepcionar. Por outro lado, se você gosta de sentir medo a ponto de o sangue gelar, este é o filme certo.
Em A Bruxa, absolutamente tudo dá certo. O prêmio de melhor direção no festival de Sundance 2015 não foi injusto. A crítica especializada tem feito as mais diversas comparações para tentar explicar ao público do que o filme se trata: A Bruxa de Blair, O Iluminado e A Vila são as referências mais comuns. Acho essas comparações injustas por duas razões: primeiro, tenta-se reduzir a originalidade da linguagem de A Bruxa ao padrão de um blockbuster somente em função de coincidências de temas ou de abordagens; segundo, porque Robert Eggers é infinitamente mais competente do que Shyamalan e faz frente ao trabalho de Kubrick em O Iluminado, sem nenhum exagero na minha afirmação.
A Bruxa é um filme capaz de fazer Alfred Hitchcock aplaudi-lo direto de sua tumba.

 

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