A GAROTA DINAMARQUESA
Gênero: Drama
Direção: Tom Hooper
Roteiro: David Ebershoff, Lucinda Coxon
Elenco: Adrian Schiller, Alicia Vikander, Amber Heard, Ben Whishaw, Cosima Shaw, Eddie Redmayne, Emerald Fennell, Ida Emilie Krarup, Jeanne Abraham, Matthias Schoenaerts, Ole Dupont, Rebecca Root, Richard Dixon, Sebastian Koch, Victoria Emslie
Produção: Anne Harrison, Eric Fellner, Tim Bevan
Fotografia: Danny Cohen
Montador: Melanie Oliver
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Duração: 120 min.
Ano: 2015
País: Estados Unidos / Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 11/02/2016 (Brasil)
Distribuidora: Universal Pictures
Estúdio: ELBE / Harrison Productions / MMC Independent / Pretty Pictures / Senator Film Produktion / Working Title Films
Classificação: 14 anos
Sinopse: Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Imaginemos a produção de um filme que tenha uma importante história a ser contada, uma personagem forte, equipe técnica competente e elenco de primeira linha, capaz de realizar algumas atuações dignas dos mais diversos prêmios. Esta produção teria tudo para tornar-se uma dos melhores filmes do ano, certo? Sim, exceto se o roteiro e a direção forem medíocres o suficiente para desperdiçar todo o potencial da produção. Infelizmente, os roteiristas David Ebershoff e Lucinda Coxon e o diretor Tom Hooper conseguiram transformar A Garota Dinamarquesa em um filme comum, que foi salvo pela qualidade do elenco e da equipe técnica.
A importância de Lili Elbe como personagem é indiscutível. Como primeira pessoa a realizar a operação de mudança de sexo, em 1930, Lili tornou-se o símbolo da luta da comunidade transexual no reconhecimento de sua identidade de gênero. Se identidade de gênero é um tema controverso, cuja discussão ainda se baseia em esteriótipos e preconceitos ainda em 2016, pode-se imaginar o quanto Lili foi corajosa em buscar assumir sua identidade nos anos 1920, a despeito de toda a incompreensão, do preconceito e das tentativas de cura de sua “esquizofrenia” ou de sua “perversão” por meio dos métodos mais “modernos” de sua época, como o eletrochoque. Dessa forma, A Garota Dinamarquesa poderia ter marcado época, porém, uma história forte contada por um diretor fraco não poderia resultar em nada de especial. E como diria o Barão de Itararé: “de onde menos se espera é que não sai nada”.
O primeiro ato do filme só não se torna completamente ridículo em função das atuações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander – que rouba a cena diversas vezes ao longo de todo o filme. O processo de descoberta da identidade de gênero de Lili na transformação de Einar (Redmanyne) é narrado como se fosse um treinamento realizado por sua esposa (Greta), quem, ingenuamente, não percebe o que está acontecendo, ao incentivar seu marido a usar roupas femininas. Em alguns momentos, parece que estamos vendo uma versão mal acabada de Memórias de uma Gueixa, com alguns ecos de Karatê Kid (e juro que não estou exagerando). Assim, o processo de autodescoberta de Lili é retratado de forma juvenil e imatura, subestimando a inteligência do espectador.
Felizmente, o segundo ato é o ponto alto da narrativa. Eddie Redmayne e Alicia Vikander têm material bom o suficiente para trabalhar. O conflito que se estabelece entre Greta e Einar/Lili é retratado de forma competente, ao possibilitar o desenvolvimento dos personagens centrais em todas as suas contradições, medos, inseguranças e perturbações. Também há falhas neste ato, com algumas sequências que mais parecem de filmes clássicos de Sherlock Holmes do que de um drama que deveria ser um estudo de personagem, mas são irrelevantes no contexto geral do segundo ato. Nesse ponto do filme, Redmayne e Vikander conseguem nos dar a esperança de que A Garota Dinamarquesa se torne um grande filme, porém…o terceiro ato é apenas regular, com apelos a clichês desnecessários, que prejudicam a força do desfecho da jornada de Lili Elbe.
Adaptado do romance homônimo, o fracasso do roteiro é corroborado pela não indicação ao Oscar 2016 na categoria de melhor roteiro adaptado. Claro que indicação ao Oscar não é uma obrigação, mas, considerando todos os fatores que favoreciam a produção, realizar um filme que funciona precariamente como narrativa de qualidade é a prova da falta de inspiração da equipe de roteiro e direção, digamos assim, para sermos mais educados.
Para além das grande atuações de Redmayne – que passou por mais um processo impressionante de transformação e me comoveu mais que a atuação de Di Caprio – e Vikander – que também atuou em nível altíssimo em Ex Machina -, A Garota Dinamarquesa é um filme visualmente lindo, com desenho de produção muito bem elaborado e figurino impecável. Infelizmente, a competência da equipe não foi suficiente para evitar que o resultado fosse um filme apenas mediano, que pode ser considerando uma espécie de Teoria de Tudo melhorado.
Definitivamente, Lili Elbe merecia mais do que isso.
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