Gênero: Drama
Direção: Alejandro González Iñarritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Mark L. Smith
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Lukas Haas, Brad Carter, Forrester Goodluck, Brendan Fletcher, Dave Burchill,Javier Botet, Joshua Burge, Kory Grim, Kristoffer Joner, Paul Anderson, Robert Moloney.
Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, David Kanter, James W. Skotchdopole, Keith Redmon, Mary Parent, Steve Golin
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Montador: Stephen Mirrione
Trilha Sonora: Bryce Dessner, Carsten Nicolai, Ryûichi Sakamoto
Duração: 151 min.
Ano: 2015
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 04/02/2016 (Brasil)
Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Anonymous Content / New Regency Pictures / RatPac Entertainment
Sinopse: Em 1823, comerciante de peles luta pela sobrevivência após ser atacado por um urso e deixado para trás por membros de seu grupo.
Nota do Razão de Aspecto:
Quando um filme começa a ser badalado demais, em especial semanas antes do Oscar, sendo indicado como favorito a várias categorias, surge uma pulsão dupla: a curiosidade e o interesse em assisti-lo e um certo espírito malvado que quer achar defeito e afirmar “ah, não é tudo isso…”. Sabe aqueles filmes feitos “pra ganhar Oscar”?  É sempre um prazer desbancá-los…. No caso de O Regresso, eu ainda tinha um pouco mais de má vontade, por ser um cenário e um tema que não me interessam tanto, e pela possibilidade de Alejandro González Iñarritu ganhar o bicampeonato como Melhor Diretor. Tirando a vontade de que o Corinthians seja sempre campeão, eu tendo a torcer pelos menos favoritos…
Mas o crítico fala mais alto, e eu
tenho de dar o braço a torcer: O Regresso
é um filme impressionante em vários aspectos, seja de direção, atuação,
fotografia ou trilha sonora. A história contada é a de Hugh Glass (Leonardo
DiCaprio), caçador de peles em 1823, no que hoje é o território americano de Dakota. Ele
e seu grupo, liderado pelo Capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) são atacados
pela tribo dos Arikara. Glass é o único da equipe com conhecimento da região, e
recomenda que o grupo deixe as peles e retorne ao Forte Kiowa a pé. A decisão
irrita profundamente John Fitzgerald (Tom Hardy), homem ambicioso, que já
nutria antipatia por Glass por causa de seu filho mestiço Hawk (Forrester
Goodluck). Glass é violentamente atacado por um urso, ficando à beira da morte.
Prometendo ficar para cuidar de Glass (por uma boa quantia em dinheiro), Fitzgerald
o abandona à própria sorte. A partir daí, acompanhamos a jornada de Glass pela
sobrevivência e pela vingança contra Fitzgerald.
Os pontos
positivos principais do filme são a direção, as atuações e a fotografia.
Iñarritu saiu de um filme passado em quase sua totalidade em ambientes fechados
(Birdman) para outro em que predominam paisagens da natureza norte-americana,
canadense e argentina. Há vários planos-sequência longos no filme, como uma
movimentação de câmera e dos atores de dificílima execução. A já famosa cena do
ataque do urso ao personagem de DiCaprio (parcialmente mostrada no trailer),
bem como a queda de um cavalo em um precipício, são daquelas de deixa
boquiaberto o espectador, tanto pela tensão criada quanto pela curiosidade em
saber como foram feitas.
Antes de assistir ao filme, e baseado apenas
no trailer e em alguns comentários prévios de críticos, havia ficado com a
impressão de que DiCaprio estava “hiperatuando”, com tanta vontade de
ganhar o Oscar que teria comprometido seu trabalho. Não foi minha percepção: o
filme tem em seus personagens homens duros, crus e violentos, e sua atuação
intensa não destoa desse universo. Seu favoritismo ao Oscar de Melhor Ator não
é só badalação pelo nome. Tom Hardy, após interpretar um Mad Max genérico, em
que não acrescentou nada de especial ao personagem, entrega uma atuação espetacular
– sobretudo se temos em mente que ele é um ator londrino interpretando um
caipira americano. Gleeson mostra que os eventuais exageros de seu General Hux
(de O despertar da Força) foram
ocasionais, e interpreta um Capitão Henry que procura manter a dignidade em um
universo de caos. Completa o núcleo principal William Poulter ( o Gally, de Maze Runner), como um jovem que acaba
levado pela situação a ir contra seus próprios princípios.
A
fotografia é de Emmanuel Lubezki, indicado oito vezes ao Oscar da categoria (a
última delas por A árvore da vida, de 2011)
e vencedor do prêmio por Gravidade
(2013) e Birdman (2015). Os trabalhos
desenvolvidos junto ao Terence Malick ecoam aqui. Em O Regresso, os realizadores decidiram filmar apenas com luz natural
(à exceção de uma cena com uma fogueira, de acordo com o próprio Lubezki). O
resultado é impressionante e belíssimo, com uma exploração praticamente de nature-porn.
A trilha
sonora é do alemão Carsten Nicolai e do veteraníssimo Ryuichi Sakamoto, que já
trabalhara com Iñarritu em Babel. Aqui, a trilha ajuda a manter a tensão, e
emoldura com beleza e intensidade as paisagens e a trama de sobrevivência.

Entendido do ponto de vista
estritamente racional, O Regresso
força demais a suspensão da descrença. Baseado (vagamente) em uma história
real, o filme exagera, e a quantidade de ferimentos de Glass, bem como as
situações pelas quais ele passa, tornam praticamente inverossímil sua
sobrevivência. Em alguns momentos, me lembrei da esquete do “Pequeno
Wilber”, do grupo humorístico Sobrinhos do Ataíde, em que, mesmo espancado,
sem um braço e uma perna, queimado e eletrocutado, o protagonista seguia em frente em suas
aventuras.

A chave, entretanto, que evita
transformar drama em comédia, é entender que Iñarritu opta por uma narrativa
praticamente mitológica, com acontecimentos e imagens repletas de significados
e simbologias (a começar do título). É o tipo de filme – como, por exemplo, Excalibur (1981) – que poderá ser objeto
de estudo de interessados por mitos e símbolos. O filme se permite cenas
claramente simbólicas, como uma pilha de crânios de animais amontoada, até
sutilezas para especialistas, como o fato de que em tradições xamânicas
norte-americanas, o urso esteja associado à sabedoria, à coragem e à renovação,
ou que o cavalo seja símbolo de iluminação espiritual e renovação. A metáfora
mais explícita e entregue pelo filme é a da árvore, que, durante uma
tempestade, dá a impressão que vai cair, pela movimentação dos galhos, mas tem
seu tronco firme. E dá-lhe búfalos, corvos e outros animais xamânicos ao longo
do filme, que fazem com que seu roteiro transborde, e muito, uma simples
história de sobrevivência e vingança.
O problema é que o filme se
deslumbra um pouco nessa sua maior força, e se deixa esticar mais do que o
necessário no segundo ato, que poderia ter uns vinte minutos a menos.  São cenas lentas e densas, mas que acabam
sofrendo do efeito novela Pantanal: cada ação, cada encontro mitológico do
protagonista é precedido e seguido de cenas da natureza, belíssimas e
artísticas, deslumbres visuais, mas que não colaboram para o ritmo. Outro
efeito é que, quando chega o terceiro ato, a sensação é a de que o filme
acelerou demais de repente, e é tudo resolvido com alguma rapidez. O embate
final entre os antagonistas, entretanto, é mais um daqueles planos-sequência de
tirar o fôlego, e recomendo atenção para os paralelismos entre o desenrolar
desta cena e a do ataque do urso.
Embora, por conta desse problema de
ritmo, receba meia estrela a menos do que Spotlight,
O Regresso paradoxalmente é um filme
mais interessante, mais ousado e mais diferenciado como exemplo de cinema, e
não será surpresa se colecionar muitas estatuetas. Iñarritu me convenceu.

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