Gênero: Ação
Direção: Sam Mendes
Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade
Elenco: Daniel
Craig,  Léa Seydoux, Christoph Waltz, Ralph
Fiennes, Andrew Scott, Ben Whishaw, Rory Kinnear, Naomie Harris, Dave Bautista,
Monica Belucci, Jesper Christensen.
Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson
Fotografia: Hoyte Van Hoytema
Trilha Sonora: Thomas Newman
Duração: 148 min.
Ano: 2015
País: Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 05/11/2015 (Brasil)
Distribuidora: Sony Pictures
Estúdio: B24 / Columbia Pictures / Eon Productions /
Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / United Artists
Classificação: 14 anos
NOTA DO RAZÃO DE ASPECTO:
Após cinco meses de ausência do blog, por motivos variados – a maioria tolos como certos roteiros – estou de volta com comentários sobre 007 contra SPECTRE, a 24ª produção cinematográfica canônica sobre James Bond. Filmes de 007 merecem a deferência.
SPECTRE é um filme no qual se
nota um divórcio entre roteiro e direção. Embora os responsáveis sejam os mesmos
de Skyfall (cuja crítica você pode ler aqui) – Mendes na direção e Logan,
Purvis e Wade, ladeados desta vez por Jez Butterworth no roteiro, o resultado final é
claramente inferior. Nem tanto da parte de Mendes: as cenas são dirigidas com
segurança, criando imponência, quando necessário, e visualmente interessantes.
Mas o filme é uma bond girl que beija
mal. Por debaixo da condução correta, repousa um roteiro extremamente
preguiçoso.
Na quarta história estrelada
por Craig, Bond não está a serviço da Rainha, e sim em uma investigação
paralela, encomendada… mais ou menos… à margem do MI-6. Em paralelo, o Serviço
Secreto britânico está em meio a uma profunda crise, capitaneada por
“C” (Andrew Scott, conhecido os fãs da série de TV Sherlock, e tão
repugnante aqui quanto lá), que deseja substituir o trabalho de campo
supostamente obsoleto dos espiões por um moderníssimo sistema vigilância
eletrônica. Nesse contexto, um misterioso personagem do passado de Bond…
Péra. Para. Já começa aí
fraqueza do roteiro (na verdade a preguiça vem desde o título, mas tergiverso).
Se, em Skyfall, “um misterioso personagem do passado de M” reaparecia
para assombrar a Dama Judy Dench, agora o mesmo expediente é usado no roteiro,
desta vez com Bond como foco da trama. E sem a menor necessidade!  Sem cometer spoilers, não havia qualquer necessidade de misturar a vida pessoal
do personagem na história.
A partir dessa premissa
requentada, o que se segue é um roteiro linear, ao longo do qual Bond segue de
uma cena a outra, conseguindo – de formas extremamente improváveis e forçadas –
a peça do quebra-cabeça que o levará à cena seguinte. É constrangedor como ele
pisca os olhinhos azuis, diz “você deve confiar em mim”, ou algo do
gênero, e todos abrem seus segredos mais íntimos para um desconhecido. Isso
quando não faz inferências completamente ex
machina
.
Não que o filme só tenha
deméritos: a cena de abertura é bastante interessante, com uma perseguição no
meio da Fiesta de Los Muertos  na capital mexicana, seguida de uma luta tensa, em um
helicóptero, pelos céus daquela cidade – o que só reforça o quanto a cena de
abertura de “Quantum of Solace” foi pífia. Craig está absolutamente à vontade no papel,
embora seu jeito de estivador e cara de boxeador russo continue incomodando (e
há um momento no filme, em meio a um lago na Áustria, em que fica claro que o
visual de estivador combina com ele mais do que um terno). 
“Pode deixar que eu carrego seu container…”

A animação dos créditos também
é digna, e, além de seguir a tendência de Skyfall – de deixar entrever sem
revelar trechos do filme, também serve como revisão dos dramas deixados em
filmes anteriores. “Writings on the
wall
“, escrita e interpretada por Sam Smith, é uma bela canção, mas o
jeito de gato no cio do cantor inglês não combina com o peso necessário.
Duvida?  Ouça a mesma música, mas nesta versão, e me diga se não é muito mais “bond”. A trilha sonora é irregular: enquanto as cenas do filme se passam na Itália, o uso de ópera e de música coral aponta para um rumo de genialidade, mas no resto da obra é bastante esquecível. 
Há, claro, diversas
guloseimas para fãs mais detalhistas do personagem, desde citações a cenas
clássicas de filmes anteriores (como a luta em um trem) até uma clínica
localizada no alto dos Alpes (alguém se lembrou de “A serviço secreto de Sua
Majestade”?). Reparem também na referência – essa apenas para quem leu os
livros de Fleming – presente no esconderijo utilizado pela equipe do MI-6.

E, por falar nisso, uma
novidade bem-vinda dos últimos filmes – aqui reforçada – é a participação mais
efetiva dos personagens secundários. O quarteto M-Q-Moneypenny-Tanner (Fiennes-Benshaw-Harris-Kinnear)
não é utilizado apenas como gatilho para as missões do agente super-homem, mas
têm crescido em construção de personalidade, tempo de tela e tramas próprias
para lidar. Particularmente no caso de Fiennes, seu peso e elegância como M faz
pensar o tempo todo como Bond deveria ser. A juventude de Benshaw o coloca em
campo de forma mais ativa do que o saudoso Desmond Llewelyn jamais foi capaz.
As bond girls estão entre as mais bonitas da história do personagem,
mas não se empolgue com a participação de Monica Belucci no filme. A atriz
entra e sai da história como uma muleta superforçada do roteiro, e parece só
ter sido escalada para homenagear sua beleza. Já a personagem de Léa Seydoux é
melhor: construída com mais calma, está longe de ser uma mocinha indefesa. Mas
o inevitável envolvimento dela com Bond não é tão convincente como fora o de
Vesper Lynd. E azul claro, cor do vestido, é a cor mais quente. Uhu.

A cena em que conhecemos a
identidade do vilão do filme é igualmente muito boa: filmada numa locação
grandiosa, com um suspense crescente, demonstração do poderio de violência do
capanga-mor (Dave Bautista, o Drax de Guardiães da Galáxia, usando sua presença
física de forma excelente) e rosto do antagonista guardado nas sombras até o
final (só que talvez tivesse sido mais inteligente não ter colocado essa cena
nos trailers, né, produção…).
Só que, para cada cena legal e
bem feita, há um desfecho pouco inspirado do roteiro. É tudo previsível demais:
desde as tramas de bastidores políticos no Reino Unido até as relações pessoais
e familiares dos personagens. E, pior: a própria forma como as pontas soltas
dos filmes anteriores são amarradas (encerrando, aparentemente, um ciclo de
histórias) é rápida, forçada e inverossímil (ok, não estou pedindo grandes
verossimilhanças em um filme de 007, mas ao menos tramas mais bem trabalhadas).
“One ring to rule them all…”

Christoph Waltz, excelente
ator austríaco – mas que anda interpretando variações do mesmo vilão há alguns
papeis – é mais um desperdiçado no filme. A cena em que ele e Bond finalmente
interagem de forma mais direta se dá numa locação espetacular, mas tem uma
solução relativamente rápida. E o filme não sabe a hora de acabar, levando seu
personagem a comportamentos estúpidos, para um vilão supostamente tão poderoso.
Nem seu personagem nem sua organização fazem jus à grandiosidade de suas homólogas
do passado clássico do personagem. O Mister Hynx de Dave Bautista tinha boas chances
de entrar na galeria de capangas memoráveis, mas, novamente, sofre com os
roteiristas, que o apresentam com determinado modus operandi na violência, para ignorarem completamente esse
traço quando do duelo com Bond.

É como se os roteiristas
tivessem uma checklist e a estivessem
cumprindo mecanicamente: “cena no esconderijo secreto grandioso do vilão –
check!”; “perseguição de
carro com gadgets – check!”; “explosão
final – check!“… É claro que
os filmes de 007 são, em grande medida, formulaicos. Mas o que faz um Cassino
Royale ser melhor do que um Quantum of Solace é justamente a forma que os
roteiristas encontrarão para fazer um filme
bom, não uma coleção de cenas clichê.
Com todos esses senões oriundos de um roteiro fraco, 007 contra SPECTRE (ô título besta) consegue ser
bastante superior a Quantum of Solace
– o que, convenhamos, não é exatamente uma conquista espetacular. É um filme mais
grandioso, menos quero-ser-bourne e
com um antagonista menos saído d´A Grande Família do que Solace, mas inferior a Skyfall e a Cassino Royale – para ficarmos
apenas na Era Craig.

A essas alturas, eu me
preocupo menos com a eventual volta de Craig ao papel principal (a qual ele meio
que renegou na imprensa, mas ainda para a qual ainda possui contratos vigentes)
e mais com a falta de inspiração dos roteiristas. Talvez uma boa dica seja
voltar ao básico: ter um roteiro que não se force a enveredar pelas vidas
pessoais dos personagens, e que pense na trama antes de pensar nas cenas.  Se bem que, dados os recordes de bilheteria, os produtores não estão nem aí pra mim… 
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