QUE HORAS ELA VOLTA?

 

Gênero: Drama
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Antonio Abujamra, Camila Márdila, Helena Albergaria, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Luis Miranda, Michel Joelsas, Regina Casé, Theo Werneck
Produção: Anna Muylaert, Débora Ivanov, Fabiano Gullane, Gabriel Lacerda
Fotografia: Bárbara Álvarez
Montador: Karen Harley
Trilha Sonora: Fábio Trummer
Duração: 114 min.
Ano: 2015
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 27/08/2015 (Brasil)
Distribuidora: Pandora Filmes
Estúdio: África Filmes / Globo Filmes / Gullane Filmes
Classificação: 14 anos
Sinopse: Depois de deixar a filha no interior de Pernambuco e passar 13 anos como babá do menino Fabinho em São Paulo, Val tem estabilidade financeira, mas convive com a culpa por não ter criado sua filha Jéssica. Às vésperas do vestibular do menino, ela recebe um telefonema da filha. Jéssica quer apoio para vir a São Paulo prestar vestibular. Com alegria e, ao mesmo tempo apreensão, Val prepara a tão sonhada vinda da filha, apoiada por seus patrões. Quando Jéssica chega, a convivência é difícil.  Todos serão atingidos pela autenticidade de sua personalidade. No meio deles, dividida entre a sala e a cozinha, Val terá de achar um novo modo de vida.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Depois de várias semanas de pausa, volto a
dedicar-me a algo que faço por prazer, e não por obrigação: discutir cinema.
Agosto foi um mês cheio, e os compromissos profissionais não me permitiram ter
um segundo de pausa para fazer qualquer coisa além dos compromissos assumidos.
Felizmente, posso retomar as críticas ao tratar de mais uma excelente produção
nacional – e 2015 tem sido um ano espetacular para o cinema brasileiro em
termos de qualidade -, o comovente longa metragem de Ana Muylaert, Que horas Ela Volta?.
Que horas Ela Volta? busca compreender, mais do que retratar, as relação de
trabalho doméstico e a desigualdade social no Brasil contemporâneo,
considerando as mudanças pelas quais o país passou nas últimas décadas e seus
efeitos sobre os antigos pactos de convivência entre as classes sociais. Essa
descrição pode parecer a de um tratado de sociologia, mas, felizmente, o
roteiro e a direção de Ana Muylaert conduzem a narrativa de forma sutil e
simbólica, sem exageros ou discursos panfletários.
Enquanto assistia Que Horas Ela Volta?, foi inevitável estabelecer
comparação com o também excelente longa metragem Casa Grande, de Fellipe
Mesquita (leia a crítica aqui),
que também trata da questão da mobilidade social e dos conflitos decorrentes
desse processo. Enquanto Casa
Grande 
é contado pelo ponto
de vista do filho patrão, Que horas Ela Volta? é uma narrativa contada do ponto
de vista da empregada doméstica, Val. Se, em Casa Grande, a falência do patrão leva ao rompimento
do pacto de convivência dentro daquele núcleo e ao conflito entre as
personagens envolvidas, em Que horas Ela Volta?, o conflito é
estabelecido pela chegada de Jéssica, filha da empregada Val, quem não aceita
as regras e a posição de subalternidade. Nos dois filmes, o retrato da
hipocrisia da elite brasileira constitui a chave da narrativa, ainda que Casa
Grande 
busque fazer uma
crítica mais direta e que Que horas Ela Volta? reflita, de forma mais
equilibrada, os conflitos sociais e pessoais de cada personagem.
O ponto mais forte de Que horas
Ela Volta? 
são as atuações, O
fato de Camila Márdula ter ganhado o prêmio de melhor atriz no Festival de
Sundance é autoexplicativo, entretanto, a interpretação de Regina Casé é
memorável. As atrizes criaram uma sinergia incrível nos papéis de mãe e filha, ao
estabelecer claramente a sutileza do conflito pessoal, resultado do suposto
abandono de Jéssica por Val, do geracional e do educacional, que resultam na
inadequação de Jéssica ao ambiente na desestabilização daquele núcleo de
convivência. A interpretação de Karine Moraes como Bárbara, a patroa passivo-agressiva,
também merece grande elogios, por conseguir criar a tensão necessária para o
desenvolvimento do conflito.
Outro ponto forte do longa metragem de Ana
Muylaert é a fotografia. Duas escolhas da direção de fotografia são
fundamentais para a construção da narrativa: a predominância de planos abertos
com a câmera parada, o que dá ênfase aos trabalhos dos atores – o filme tem
apenas uma cena em que a câmera se movimenta para acompanhar a ação; nas
filmagens internas, o foco na porta da cozinha, que estabelece a clara
separação entre o mundo de Val e o mundo dos patrões, portanto, estabelece a
narrativa do ponto de vista da personagem de Regina Casé.
Os trabalhos de roteiro e direção são de
altíssimo nível. Os diálogos e as cenas são muito bem elaborados, sem nenhuma espécie
de exagero seja no drama, seja no alívio cômico – e merece destaque o timing perfeito de Regina Casé na
transição entre as duas formas de interpretação. Algumas cenas têm potencial
para se tornarem clássicos do cinema nacional, seja pela força simbólica da
imagem, seja pelo diálogo que joga na cara dos personagens, e na nossa, uma
verdade incômoda para muitas pessoas neste país.
Que horas Ela Volta? é um filme profundamente verossímil, comovente, envolvente,
melancólico e, ao mesmo tempo, otimista, cuja força da narrativa resulta da
empatia criada entre o espectador e os personagens, com suas histórias e seus
conflitos. Não são raros os momentos em que nos flagramos de olhos marejados,
sem que nenhuma cena tenha sido apelativa. Trata-se de uma verdadeira
obra-prima do cinema brasileiro moderno, capaz de tornar-se o retrato de um
período de mudanças da sociedade brasileira que somente será compreendido, em
sua totalidade, pelas gerações futuras.
 
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