Na telinha: PENNY DREADFUL

Gênero:
Terror gótico, Drama, Thriller
Direção:
Vários diretores (J. A. Bayona, Dearbhla Walsh, Coky Giedroyc, James Hawes)
Roteiro:
John Logan
Elenco:
Evan Green, Timothy Dalton, Josh Hartnett, Billy Piper, Harry Treadaway, Rory
Kinnear, Reeve Carney, Danny Sapani, Helen McCrory, Simon Russell Beale.
Produção
executiva: John Logan, Sam Mendes, Pippa Harris
Produção:
James Flynn, Morgan O’Sullivan
Fotografia:
Xavi Giménez
Montadores:
 Bernat Vilaplana, Jaume Martí
Trilha
Sonora: Abel Korzeniowski
Duração:
aprox. 50 min por episódio.
Ano:
2014
Países:
Reino Unido, Estados Unidos
Cor:
Colorido
Estreia:
13/05/2014 (Brasil)
Distribuidores:
Sky, Showtime
Exibido
no Brasil pela HBO
Classificação:
18 anos
Sinopse: O explorador britânico
Malcolm Murray reúne um grupo de indivíduos misteriosos no intuito de resgatar
sua filha, Mina, sequestrada por seres sobrenaturais.
Nota do Razão de Aspecto:

Na Inglaterra do século XIX, popularizou-se um tipo de
publicação de baixo custo, que trazia histórias policiais e sobrenaturais,
invariamelmente sangrentas. Essas edições ganharam o apelido pejorativo de
penny dreadful” (algo como
“centavo terrível”), por serem vendidas por apenas um penny (a menor moeda então em
circulação). De alcunha jocosa, o termo “penny dreadful” passou a
caracterizar todo uma variedade de ficção da Inglaterra vitoriana,
especialmente popular nas classes trabalhadoras, entre as quais crescia a
alfabetização e a capacidade – ainda que limitada – de gastar com
entretenimento. Esses centavos terríveis seriam a mãe da pulp fiction americana.
Desse novo veículo de entretenimento, e aproveitando a
efervescência do fim do Romantismo, do impacto da Revolução Industrial e dos
cenários escuros e embaçados da cidade e do campo ingleses, surgiram histórias
que cravariam suas facas nos arquétipos e memórias da literatura. Ali surgiram,
por exemplo Sweeney Todd, o barbeiro
assassino da Rua Fleet; e o Dracula de Bram Stoker não existiria sem a
inspiração de Varney, the Vampire, um
dos mais populares penny dreadfuls da
época (e das obras de Polidori e Le Fanu, obviamente). Ainda que não tenham
sido publicados nesse formato, o “Frankenstein”, de Mary Shelly, o
“Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson, e “O retrato de
Dorian Gray”, de Oscar Wilde, bebem da mesma inspiração vitoriana, em que
o indivíduo luta para conseguir respeirar em meio às mudanças tecnológicas e
sociais intensas daquele século, quanto contra os próprios demônios internos
por elas despertados. Quando Jack, o estripador, sangrou as ruas de Londres em
seu penny dreadful real, a mente
inglesa já estava preparada para se desesperar e se fascinar em igual medida.
Eis que, mais de um século depois, estreia uma série de tv
que resgata o termo e a temática das histórias de terror gótico vitorianas. Se
você só ouviu falar da obra, pode ter escutado algo como “é tipo a Liga
Extraordinária, né?” – em referência à série de quadrinhos (ótima) do
genial Alan Moore, ou à sua (péssima) adaptação cinematográfica de 2003. Nada
mais equivocado. De fato, em ambas as séries a proposta envolve reunir
personagens conhecidos da literatura vitoriana, e interligar suas histórias,
para compor um grupo que protagonizará aventuras. Ambas são expressões claras
dessa nossa quase incapacidade pós-moderna de criar novos personagens
marcantes, tendo de, em vez disso, propor releituras e novas abordagens e
continuações do que já foi feito antes.
As semelhanças param na aparência. Enquanto a Liga
Extraordinária traz histórias mais aventurescas – ainda que devidamente
doentes, como é bem do gosto de Moore (e meu) – na série Penny Dreadful o arco
principal a ser resolvido pelos protagonistas ao longo da primeira temporada é
o que menos importa. Um explorador inglês tem sua filha sequestrada por um
grupo de seres sobrenaturais. Ele reúne um grupo para resgatá-la, e, se eles
serão bem sucedidos ou não, você descobrirá ao final da temporada.
O importante em Penny Dreadful é… a tensão. Ao contrário
do seus pais literários, a série não adota uma linguagem barata de terror. Os
elementos tradicionais estão lá:  muito
sangue, seres sobrenaturais – e, dada a maior liberalidade aparente do século
XXI, uma sensualidade mais explícita. Mas a construção dos personagens
(auxiliada por um elenco primoroso) e a forma como as histórias são contadas é
o que hipnotiza.
O criador da série é John Logan, que, embora faça sua
estreia na TV, é veterano no cinema, tendo escrito ou adaptado filmes
conhecidos, como Gladiador (2000), O último samurai (2003), O aviador (2004),
Sweeney Todd (2007, ahá!), Rango (2011), Hugo (2011), além do último e do
próximo filme de James Bond, Skyfall (2012) e Spectre (2015). Dessa parceria
com Sam Mendes no filme do agente secreto, nasceu a ideia de criar Penny
Dreadful.
Um outro parentesco entre as produções de James Bond e
Penny Dreadful está na presença de Timothy Dalton, um Bond excelente (entre
1987 e 1989) em dois filmes nem tanto. Reduzir o ator galês a um
“ex-Bond” é, entretanto, um sacrilégio, uma vez que desde o final da
década de 1960 ele presenteia a audiência com papeis marcantes (para citar
apenas um, seu Heathcliff de “O morro dos ventos uivantes”, na
adaptação de 1970, é possivelmente o melhor de todos os tempos). É muito
bem-vindo vê-lo com espaço para mostrar seu talento, com intensidade, dureza e
carisma.
Seu Lord Malcolm Murray inspira-se em diversas figuras de
exploradores ingleses tão comuns na era vitoriana, que vão do real David
Livingstone ao ficcional Allan Quatermain. Dalton mistura firmeza, determinação
e vaidades de explorador, com um passado de profunda culpa, além e momentos de
maquiavelismo em prol do resgate de sua filha, Mina (Mina Murray, ring a bell?).
Para auxiliá-lo conta com a personagem que roubou
completamente a primeira temporada – e parece voltar a fazê-lo na segunda:  Vanessa Ives, uma misteriosa vidente, paranormal,
e amiga íntima de Mina. Interpretada por Eva Green, em um misto de irresistível
beleza e contenção constante ao que parece assombrá-la internamente, Vanessa
Ives é uma das principais responsáveis pelos rumos da história e pelas
estranhas relações afetivas que são construídas. A personagem mistura religião,
misticismo, demonologia, exorcismo, luxúria (quase sempre) contida e um
mistério capaz de paralisar vampiros, nocautear psiquicamente outros médiuns, e
os espectadores juntos. 
A esse par de protagonistas junta-se Josh Hartnett, o
filho perdido de Richard Gere,
no que é provavelmente o melhor papel de sua
carreira. Hartnet interpreta Ethan Chandler. Na fachada, um pistoleiro
norte-americano durão, um cowboy
americano em Londres. Esse “papel muito bem representado”, como diria
Miss Ives, esconde um indivíduo capaz de se apaixonar por uma prostitua
irlandesa tuberculosa (Billie Piper, distanciando-se de vez dos seus tempos de
acompanhante do Doutor, que viveu de 2005 a 2009 em “Doctor Who) e ser gentil
com os animais. Há pelo menos três momentos – isso em uma temporada de apenas
oito episódios – que as ações de Chandler deixam o espectador boquiaberto e
completamente tonto.
Outro núcleo de destaque é o que envolve os personagem de
Harry Treadaway e Rory Kinnear. Treadaway interpreta um certo doutor da
literatura do século XIX, particularmente obcedado por vencer a morte e por
experiências com eletricidade. Kinnear (outro do elenco de James Bond a ser
incorporado à série) é sua criatura primogênita, o resultado de suas

primeiras
experiências, que volta para atormentar seu criador (e a sua primeira aparição
na série é de arrebentar as entranhas de qualquer um). No embate entre esses
dois personagens, e ao acompanhar os esforços da criatura em se adaptar ao
mundo dos homens, temos os momentos mais Românticos (esse, o da letra
maiúscula, não o da música brega) produzidos nos últimos anos. Entre citações
de poesia, monólogos shakespeareanos (ao ouvir um, em especial, já ao final da temporada, se não torturar seu coração, saiba que o monstro é você) e flertes com o Fantasma da Ópera de
Gaston Leroux, Kinnear consegue algo que não imaginava ver: superar, e com
enorme folga, versão de Robert De Niro em Frankenstein de Mary Shelly (1994). 

Perpassando a temporada de uma forma tangencial, sem se
envolver com a trama principal, mas… intimamente… relacionado com alguns
dos protagonistas, esta o Dorian Gray de Reeve Carney. Lindo, andrógino e
entediado como manda o figurino Wilde, Carney é outro a deixar para trás sua
carreira mais luminosa (foi o primeiro protagonista na Broadway do musical do
Homem Aranha – Turn off the dark)
para mergulhar na escuridão da alma gótica vitoriana.

Não há personagens rasos em Penny Dreadful. Todos eles,
dos protagonistas aos coadjuvantes, parecem esconder segredos, lados sombrios
só intuíveis por seus interlocutores e por nós, a audiência. Todos, todos, tem
seus demônios internos. Mesmo Brona, que não parece ter um segredo sobrenatural
dentro de si, luta com o monstro da tuberculose, que bafeja a morte em cada
pequeno momento de felicidade que consegue ter em sua vida decadente.
Vale uma nota especial para o trabalho de Abel
Korzeniowski. Uma trilha sonora inapropriada pode destruir uma história de
terror. O que temos aqui é exemplo oposto: 
densa, tensa, intensa e dramática quando precisa ser, a trilha de Penny
Dreadful envolve, enlaça penetra profunda e perfeitamente o que se vê no vídeo.
Para aqueles que conhecem MUITO sobre as histórias de
terror vitorianas, e que captam detalhes e referências muito rápido, em alguns
momentos Penny Dreadful pode soar um pouco previsível. Por outro lado, é interessante descobrir como os autores juntaram referências, ou
fizeram alusões a certas histórias sem incorporá-las diretamente ao roteiro.
Como mencionado, o que acontece pouco importa, e sim a condução da série. Há pelo menos uma morte desnecessária de personagem famoso (daquelas em que você pensa “podiam aproveitar mais o personagem”. Um outra ressalva sobre a série é sua curtíssima duração, com apenas oito episódios. Para a segunda temporada, serão dez programas, o que poderá dar espaço para um desenvolvimento ainda maior das tramas.
Penny Dreadful é um oásis para quem gosta de terror
clássico. Sem as mortes-após-mortes dos Jogos Mortais da vida, sem o fetiche
pelos zumbis tão comum recentemente (que eu até compreendo, dado que vivemos em um mundo onde a
maioria das pessoas parece morta mesmo). A série explora muito bem os simbolismos
(desde sua abertura, com escorpiões, aranhas, morcegos, sangue, flores, e
lâminas. É um mundo onde a paixão e a morte são inseparáveis, e onde o que se
esconde nas sombras e nos cantos dos olhos só não amedronta mais do que o que o
espelho reflete.
Damas e cavalheiros, estamos diante de terror gótico
victoriano gourmet, no melhor dos
sentidos da palavra. Pouca coisa pode ser melhor.
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