CASA GRANDE

 

 
Gênero: Drama
Direção: Fellipe Barbosa
Roteiro: Fellipe Barbosa
Elenco: Bruna Amaya, Clarissa Pinheiro, Georgiana Góes, Marcello Novaes, Suzana Pires, Thales Cavalcanti
Produção: Clara Linhart, Iafa Britz
Fotografia: Pedro Sotero
Montador: Karen Sztajnberg, Nina Galanternick
Duração: 115 min.
Ano: 2014
País: Brasil
Cor: Colorido
Estreia: 16/04/2015 (Brasil)
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Migdal Filmes
Classificação: 14 anos
Sinopse: Sônia (Suzana Pires) e Hugo (Marcello Novaes) são da alta burguesia carioca e levam uma vida bastante confortável. Aos poucos vão à falência, mas ninguém sabe de seus problemas financeiros, nem mesmo o filho Jean (Thales Cavalcanti), que faz de tudo para se desvencilhar dos pais superprotetores. Para se manter, o casal corta despesas, e Jean, que só se preocupava com garotas e vestibular, enfrenta pela primeira vez a realidade.
Nota do Razão de Aspecto:
 
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Não poderia começar este texto sem expressar minha satisfação e minha felicidade com  o altíssimo nível de qualidade dos filmes nacionais lançados no circuito comercial em 2015. Seja pela criatividade e pela originalidade no desenvolvimento da linguagem cinematográfica, como em Branco Sai, Preto Fica, seja pela qualidade da fotografia e do retrato da alma das cidades de Rio e São Paulo, em Ponte Aérea, seja pela retrato cru da sociedade brasileira do impactante Casa Grande, o cinema brasileiro tem demonstrado sua diversidade e sua força narrativa. Tratam-se de filmes que deviam encher as salas de cinema devido à sua qualidade, o que não acontece somente por algum tipo de preconceito ou por desconhecimento. Infelizmente, produções mais pretensiosas e muito menos qualificadas garantem bilheterias maiores apenas porque são estrangeiras. 
 
Casa Grande causou-me efeito imediato, em função de tratar do conflito entre dois mundos que conheço: o mundo no qual cresci – aquele dos empregados, da periferia, da dificuldade – e o mundo no qual vivo atualmente – aquele das pessoas que cresceram sem grandes dificuldades, que não compreendem o que é ser pobre, que se consideram prejudicadas pelas políticas de ação afirmativa e acreditam em contos de fadas como meritocracia e igualdade de oportunidades, como se fosse possível considerar que a desigualdade social não não tenha influência sobre as “oportunidades”.  Casa Grande tornou-se experiência singular para mim, uma vez que percebo diariamente como a maior parte da elite brasileira é incapaz de ter empatia e mesmo de compreender racionalmente a realidade daquilo que se pode definir como povo brasileiro.
Casa Grande é um tapa na cara dos valores centenários da elite brasileira, que acredita ter direito à manutenção dos privilégios como se lhes fossem concedidos por direito divino. Quando a decadência financeira bate à porta, explodem a hipocrisia e distorção dos valores como recursos para a manutenção das aparências. Dentro desse turbilhão de acontecimentos, o adolescente Jean passa por um duro processo de amadurecimento por meio de um “choque de realidade” ao perder o seu motorista Severino, ao ter a mensalidade do Colégio São Bento atrasada, ao ficar devendo pequenas quantias aos colegas e, principalmente, ao apaixonar-se por Luiza, uma aluna de escola pública e de classe baixa, cujos valores são totalmente conflitantes com aqueles que fundamentaram o crescimento de Jean.
Fellipe Barbosa fez um grande trabalho de roteiro e direção, ao construir uma narrativa contundente, que, ao mesmo tempo, é sutil e explícita. Todas as discussões sobre temas como cotas raciais, meritocracia e programas sociais são contextualizadas de forma verossímil. Não é difícil para o espectador imaginar-se em um daqueles diálogos em sua vida cotidiana, principalmente em um período no qual o debate político alcança todos os lugares e a polarização de opiniões caracteriza a nossa sociedade. Em Casa Grande, essa polarização não se anuncia nas redes sociais, mas, sim, na convivência diária, pela combinação da bancarrota de Hugo (Marcelo Novaes) e da chegada da “intrusa” Luiza (Bruna Amaya) no mundo de Jean (Thales Cavalcanti).
Para além do roteiro e da direção, Casa Grande  conta com atuações inspiradas de todo o elenco, com destaque para para Thales Cavalcanti, no papel de Jean, e de Marcelo Novaes, no papel do pai, Hugo – quem diria que um dia veríamos o ator de Quatro por Quatro, sempre sem camisa e às voltas com problemas amorosos com sua namorada Babaloo, em um papel dramático de tamanha intensidade. Clarissa Pinheiro, no papel de Rita – a empregada gostosona – também tem atuação marcante e fundamental para a o fechamento do arco dramático de Jean.
Assim como em O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, o filme de Fellipe Barbosa mantém o espectador em tensão permanente à espera do conflito, porém, o conflito esperado não é fisicamente violento, mas, sim, psicologicamente devastador, por resultar da explosão do choque entre o mundo protegido e o mundo real, da contradição entre a “cordialidade” entre patrão que não paga o salário e o empregado que não quer perder o emprego e da transformação da vida de um jovem em fase de realizar escolhas definidoras do seu futuro. Quando o grande conflito finalmente acontece, as frágeis bases de uma vida sustentada em aparências e mentiras são destruídas, e Jean finalmente se liberta.
Após séculos de opressão das minorias, escravismo, patriarcalismo e patrimonialismo, o Brasil “moderno” ainda reproduz a lógica da colônia em sua dinâmica social. Se, há duzentos anos, havia distanciamento evidente entre a casa grande e a senzala, no brasil do século XXI, existe a mesma distância entre sala de jantar, que representa a casa grande, e a cozinha ou o quarto de empregada, que representa senzala. Em Casa Grande, Fellipe Barbosa utiliza-se dos enquadramentos para, de forma sutil, sem nenhum diálogo, mostrar como o Brasil da modernidade não é tão moderno assim.
Casa Grande é o filme do ano, talvez o filme de alguns anos, porque retrata o Brasil que muitos de nós se negam a reconhecer, embora ele esteja, muitas vezes, ao nosso lado, representado por quem nos serve o café no trabalho ou por quem limpa a nossa sujeira dos banheiros do andar. Infelizmente, haverá quem entenda Casa Grande como uma obra panfletária e ignore que se trata de um dos melhores retratos do equilíbrio de antagonismos, como definido por Gilberto Freyre – não por acaso, o título do filme faz referência à obra seminal do autor.  Quiçá toda a nossa falta de sensibilidade social e de sofisticação intelectual pudesse ser superada por uma experiência libertadora como a do personagem de Thales Cavalcanti.
 
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