OSCAR DE MELHOR FILME ESTRANGEIRO – CRÍTICAS E RANKING DOS INDICADOS

 

Considero a categoria de melhor filme estrangeiro a mais interessante do Oscar. As razões que me levam a essa opinião são diversas, mas igualmente relevantes: a) o processo de escolha dos indicados contribui para difundir grandes realizações cinematográficas para o grande público; b) contribui, em grande medida, para sofisticar o gosto cinematográfico do público; c) leva ao grande público o conhecimento de novas culturas e novas linguagens; d) reconhece a qualidade artística e o talento dos profissionais do cinema fora Hollywood.
Diferentemente do que ocorre na categoria de melhor filme – muito em função da diferente forma de selecionar os indicados -, o Oscar de melhor filme estrangeiro privilegia qualidade artística em detrimento da fórmula hollywoodiana de filme oscarizável.  Ainda que haja clara preferência temática nos filmes selecionados ao longo dos anos, sempre são indicados filmes de linguagem não convencional, com abordagens temáticas muito sensíveis e envolventes. Não há filmes medianos nessa categoria.
Em 2015, os indicados representam Argentina, Estônia, Mauritânia, Polônia e Rússia. São grandes filmes sobre temas diversos, respectivamente: tolerância, os efeitos e a falta de sentido da guerra, os absurdos do fundamentalismo, a autodescoberta e a luta do indivíduo contra o autoritarismo do Estado.  Devido à exiguidade de tempo, não será possível fazer críticas completas de todos os indicados, mas foi possível elaborar nosso ranking comentado. Mais uma vez, é necessário esclarecer que o ranking reflete a nossa preferência, e não o favoritismo dos filmes ao prêmio – que será tema de texto específico no Blog.

5- RELATOS SELVAGENS

Gênero: Comédia
Direção: Damián Szifron
Roteiro: Damián Szifron
Elenco: Darío Grandinetti, Diego
Gentile, Diego Velázquez, Erica Rivas, Julieta Zylberberg, Leonardo
Sbaraglia, Liliana Ackerman, María Marull, María Onetto, Mónica Villa,
Nancy Dupláa, Oscar Martínez, Osmar Núñez, Ricardo Darín, Ricardo
Truppel, Rita Cortese
Produção: Agustín Almodóvar, Esther García, Hugo Sigman, Matías Mosteirín, Pedro Almodóvar
Fotografia: Javier Julia
Montador: Damián Szifron, Pablo Barbieri Carrera
Trilha Sonora: Gustavo Santaolalla
Duração: 122 min.
Ano: 2014
País: Argentina / Espanha
Cor: Colorido
Estreia: 23/10/2014 (Brasil)
Estúdio: El Deseo S.A. / Kramer
Classificação: 16 anos
Nota do Razão de Aspecto:
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O que aconteceria e, de repente, o ser humano perdesse suas barreiras morais? Se decidíssemos realizar todos os nos planos de vingança? Se resolvêssemos expressar toda a raiva contida que guardamos contra o que consideramos injusto? Este é o tema das seis histórias de Relatos Selvagens, longa metragem com direção e roteiro de Damián Szifron.
Relatos Selvagens é um filme forte, que desperta empatia no público. É quase impossível que o espectador deixe de identificar-se com pelos menos uma de suas seis histórias. Ao mesmo tempo, o filme é desequilibrado, considerando que três histórias sobressaem sobre as demais, especificamente as  do engenheiro, interpretado pro Ricardo Darín, da estrada e do casamento, enquanto das demais são apenas medianas.  Esse desequilíbrio faz do representante da Argentina o mais fraco dos cinco concorrentes, o que não significa que não seja um excelente filme.

4- TANGERINES

Gênero: Drama
Direção: Zaza Urushadze
Roteiro: Zaza Urushadze
Elenco: Elmo Nüganen, Giorgi Nakashidze, Lembit Ulfsak, Misha Meskhi, Raivo Trass
Produção: Ivo Felt
Fotografia: Rein Kotov
Montador: Alexander Kuranov
Trilha Sonora: Niaz Diasamidze
Duração: 87 min.
Ano: 2013
País: Georgia / Estônia
Cor: Colorido
Distribuidora: Georgian Film
Estúdio: Allfilm
Nota do Razão de Aspecto:
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Bergamotas, ups, Tangerines discute o sentido da guerra, ou a falta dele, e o que leva homens comuns a odiarem-se e a matarem-se sem uma razão concreta. Para realizar essa discussão, o longa metragem do georgiano Zaza Urushadze investe no encontro entre um soldado georgiano e um mercenário checheno feridos em uma vila quase deserta na Abhkazia, onde são socorridos por um morador estoniano que os obriga a conviverem pacificamente durante a recuperação.
Tangerines tem uma narrativa sensível e tocante, que permite ao espectador acompanhar a transformação dos personagens ao longo do processo de convivência, quando passam a se compreenderem como seres humanos em vez de meros alvos inimigos. Quando o desastre chega – na guerra, o desastre tarda, mas não falha -, percebemos como o indivíduo é capaz preservar sua humanidade, mesmo nas circunstâncias mais adversas. Parece paradoxal, mas considerei o filme otimista do pontos de vista estritamente filosófico.

3- TIMBUKTU

Gênero: Drama

Direção: Abderrahmane Sissako

Roteiro: Abderrahmane Sissako, Kessen Tall

Elenco: Abel Jafri, Adel Mahmoud
Cherif, Cheik A.G. Emakni, Damien Ndjie, Djié Sidi, Fatoumata Diawara,
Hichem Yacoubi, Ibrahim Ahmed, Kettly Noël, Layla Walet Mohamed, Mamby
Kamissoko, Mehdi A.G. Mohamed, Salem Dendou, Toulou Kiki, Weli Cleib,
Yoro Diakité, Zikra Oualet Moussa

Produção: Sylvie Pialat

Fotografia: Sofian El Fani

Montador: Nadia Ben Rachid

Trilha Sonora: Amin Bouhafa

Duração: 97 min.

Ano: 2014

País: França / Mauritânia

Cor: Colorido

Estreia: 22/01/2015 (Brasil)

Distribuidora: Imovision

Estúdio: Dune Vision / Les Films du Worso

Classificação: 14 anos

Nota do Razão de Aspecto:
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Poesia. Nenhum outro substantivo define melhor Timbuktu, representante da Mauritânia no Oscar 2015. O filme tem sequências absolutamente memoráveis, capazes de sensibilizar qualquer coração insensível diante do absurdo que se instalou na vila de Timbuktu após a chegada dos Jihadistas. Em especial, destaco a cena em que os jovens do pequeno vilarejo, proibidos de jogar futebol, encenam uma partida sem bola, de forma completamente sincronizada. A música orquestrada, o enquadramento em plano médio e o desenvolvimento em câmera lenta deram à cena a semelhança com o ballet, ao mesmo tempo em que traduz as válvulas de escape do ser humano diante ao autoritarismo.
Ao contrário do que se podem imaginar, Abderrahmane Sissako não realizou um filme maniqueísta. Ao longo da narrativa, trava-se o debate entre os jihadistas e o islamismo moderado como mediador das relações na região. Retrata-se tudo aquilo que o ocidente considera “barbárie”, mas também se pode compreender as motivações envolvidas, sem condescendência ou maniqueísmo. Em Timbuktu, o ser humano se torna caça do ser humano quando o fundamentalismo prevalece sobre a razão.

2- LEVIATÃ

 

Gênero: Drama

Direção: Andrey Zviaguintsev

Roteiro: David Webb Peoples, Jeb Stuart

Elenco: Amanda Pays, Daniel Stern,
Ernie Hudson, Eugene Lipinski, Hector Elizondo, Larry Dolgin, Lisa
Eilbacher, Meg Foster, Michael Carmine, Pascal Druant, Peter Weller,
Richard Crenna, Steve Pelot

Produção: Aurelio De Laurentiis, Luigi De Laurentiis Jr.

Fotografia: Alex Thomson

Montador: John F. Burnett

Trilha Sonora: Jerry Goldsmith

Duração: 141 min.

Ano: 2014

País: Rússia

Cor: Colorido

Estreia: 15/01/2015 (Brasil)

Distribuidora: Imovision

Estúdio: Filmauro / Gordon Company / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Classificação: 14 anos

 

Nota do Razão de Aspecto:
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 Embora não seja o meu preferido entre os cinco concorrentes, Leviatã é o favorito ao prêmio do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2015 – não por acaso, venceu o Globo de Ouro na mesma categoria. O filme é uma grande metáfora sobre a Rússia moderna, representada pela luta do indivíduo contra o autoritarismo do Estado.
 O cenário da narrativa é uma pequena cidade no interior da Rússia, onde se trava uma batalha judicial entre um cidadão comum e o prefeito corrupto a respeito da desapropriação da casa da família. O homem decide enfrentar a máquina do Estado até o fim e sofre as consequências dessa luta na vida profissional e familiar.
 Em Leviatã, o peso da narrativa é apoiado pelos planos abertos em paisagens às vezes solitárias, às vezes devastadas, que progressivamente representam a destruição emocional, profissional e mental do protagonista. O grande esqueleto de baleia representa simbolicamente aquilo que resta de um sistema apodrecido em meio à desolação que resulta quando um ser humano sucumbe ao tentar enfrentar solitariamente um sistema podre e corrupto. 

1- IDA

 

Gênero: Drama

Direção: Pawel Pawlikowski

Roteiro: Pawel Pawlikowski, Rebecca Lenkiewicz

Elenco: Adam Szyszkowski, Afrodyta
Weselak, Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Anna Grzeszczak, Artur
Janusiak, Dawid Ogrodnik, Dorota Kuduk, Halina Skoczynska, Izabela
Dabrowska, Jan Wociech Poradowski, Jerzy Trela, Joanna Kulig, Mariusz
Jakus, Natalia Lagiewczyk

Produção: Eric Abraham, Ewa Puszczynska, Piotr Dzieciol

Fotografia: Lukasz Zal, Ryszard Lenczewski

Montador: Jaroslaw Kaminski

Trilha Sonora: Kristian Eidnes Andersen

Duração: 82 min.

Ano: 2013

País: Dinamarca / Polônia

Cor: Colorido

Estreia: 25/12/2014 (Brasil)

Distribuidora: Zeta Filmes

Estúdio: Opus Film / Phoenix Film Investments

Classificação: 16 anos

Nota do Razão de Aspecto:
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 Ida é um filme de narrativa poderosa – razão que o torna meu candidato preferido ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2015. Apesar da indiscutível qualidade de todos os seus concorrentes, Ida é um filme superior em todos os quesitos.
 A narrativa da autodescoberta de uma quase freira que se descobre judia e vai em busca de seu passado fundamenta-se muito mais na inteligência dos silêncios do que na inteligibilidade dos diálogos. A densidade dos personagens, especialmente da protagonista e de sua tia, cala fundo no espectador.  A fotografia em preto em branco, juntamente com a alternância entre os planos abertos em plano fechados, retrata a solidão e a angústia, a desolação e dúvida que caracterizam a relação entre a noviça e sua tia recém descoberta em busca da verdade sobre o destino de sua família durante a Segunda Guerra Mundial.
 Ida é uma experiência psicológica e estética inesquecível para os admiradores do cinema como arte, com direção magistral de  Pawel Pawlikowski.
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