O ABUTRE (NIGHTCRAWLER)

Gênero: Suspense/Ação/Drama
Direção: Dan Gilroy
Roteiro: Dan Gilroy
Elenco: Alex Ortiz, Bill Paxton, Bill Seward, Carolyn Gilroy, Eric Lange, Holly Hannula, Jake Gyllenhaal, James Huang, Jonny Coyne, Kent Shocknek, Kevin Dunigan, Kevin Rahm, Leah Fredkin, Marco Rodríguez, Michael Papajohn, Nick Chacon, Pat Harvey, Rick Chambers, Rick Garcia, Sharon Tay
Produção: David Lancaster, Jake Gyllenhaal, Jennifer Fox, Michel Litvak, Tony Gilroy
Fotografia: Robert Elswit
Montador: John Gilroy
Trilha Sonora: James Newton Howard
Duração: 117 min.
Ano: 2014
País: Estados Unidos
Cor: Colorido
Estreia: 18/12/2014 (Brasil)
Distribuidora: Diamond Filmes
Estúdio: Bold Films
Classificação: 14 anos
Sinopse: Quando Lou Bloom, um homem ambicioso e desesperado por trabalho, entra para o jornalismo de crime na cidade de Los Angeles, ele ultrapassa a linha entre observador e participante para se tornar a estrela da própria reportagem.
Nota do Razão de Aspecto:
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 O Abutre é um filme que suscita muitos questionamentos e muitas reflexões a respeito tanto da sociedade em que vivemos quanto da estética cinematográfica, ao criar uma trama que dificilmente poderia ser enquadrada em apenas um gênero ou em apenas um formato. Por essa razão, a ficha técnica publicada no Razão de Aspecto escolheu os gêneros de suspense, ação e drama , por serem aqueles que predominam na narrativa, apesar do diálogo permanente com a crítica social e o estudo de personagem.  Capitaneado pela atuação de Jake Gyllenhall – para qual não consegui encontrar nenhum adjetivo que a qualifique com a devida justiça -, O Abutre é uma obra multifacetada que se constitui como uma das mais interessantes e intrigantes de 2014.

O Abutre é eficiente como filme de suspense, ao manter a tensão permanente e relação às reações do protagonista Lou Bloom. Embora os traços da psicopatia do personagem sejam evidentes desde a primeira cena, a trama sustenta a tensão permanente, ao levar Lou Bloom o mais próximo possível da explosão, sem que ela ocorra de forma violenta, resultando em suspense psicológico extremamente eficaz. A forma como o personagem dá vazão aos seus sentimentos de vingança, raiva e frustração  é sempre fria e calculista, evitando que Lou Bloom suje as próprias mãos.  Quando Lou, em meio a um diálogo tenso, afirma ao seu parceiro “já pensou que, em vez de eu não saber falar com as pessoas, talvez eu apenas não goste delas”, podemos sentir a espinha gelar de medo sem que nenhum gesto de violência tenha sido realizado pelo personagem.
O filme também se sustenta como filme de ação, em função das características próprias da narrativa fundamentada na cobertura jornalística de crimes, acidentes, desastres e tudo aquilo que for sangrento o suficiente, dissemine o medo e construa uma “história” a ser difundida nas redes de televisão aberta. Dessa forma, testemunhamos a violência nas ruas de Los Angeles, especialmente nos bairros ricos, de forma crua, resultando em sequências de ação interessantes. Na melhor sequência do filme, Lou Bloom e seu parceiro Rick filmam uma perseguição pelas ruas da cidade em altíssima velocidade, de forma a colocar o espectador como passageiro do veículo em alta velocidade, ao elevar a tensão ao limite.
O drama e o estudo de personagem confundem-se em O Abutre. Lou Bloom inicia a trama como um pequeno golpista, porém ambicioso, em busca de oportunidade para alcançar aquilo que considera merecer. Apesar de não ter educação formal, Lou apresenta-se sempre como um “quick learner” (alguém que aprende rápido) e um “hard worker” (trabalhador esforçado) em busca de uma alternativa de sobrevivência. Ao ingressar no mundo do jornalismo de desastres, Lou encontra a oportunidade que buscava para realizar suas ambições e para dar vazão à sua evidente psicopatia mediante a indiferença em relação à dor alheia e, por vezes, mediante o evidente prazer que sente ao levar a cabo seus planos de vingança.
Um das características mais interessantes  do personagem é seu autodidatismo. Durante toda a trama, em nenhum momento Lou Bloom deixa de expressar-se como se estivéssemos ouvindo assistindo a uma vídeo-aula de autoajuda ou um seminário sobre “como abrir e administrar seu negócio” ou “conquiste o sucesso em dez lições”, combinado com uma atitude limítrofe entre a frustração e a violência iminente expressadas pelo seu olhar melancólico e agressivo. Os diálogos entre Lou e Rick sobre os rumos da empresa – destaco especialmente a entrevista de emprego de Rick e também aquele que pode ser considerando seu diálogo decisivo antes da sequência da perseguição – são exemplos contundentes dessa personalidade formada, segundo o próprio personagem, pela pesquisa durante horas seguidas no computador.
Dessa forma, testemunhamos a evolução de Lou Bloom de um golpista miserável a um homem de sucesso, capaz de usar suas habilidades no trabalho para negociar um lugar na cama de Nina, interpretada por Rene Russo, sem nenhum pudor e, por fim, estabelecer compulsoriamente os termos da relação de trabalho entre ambos. O retrato dessa evolução social e econômica é o de que, na primeira oportunidade, Lou Bloom troca seu velho carro por um Camaro vermelho – algo singelo, mas muito representativo de suas ambições e de sua visão de mundo.
Como crítica social, O Abutre é incisivo e, por que não afirmar, cínico, ao retratar as motivações do mercado de notícias sangrentas. A preocupação com a audiência acima da qualidade da notícia, o uso da disseminação do medo como ferramenta para ganhá-la e a insensibilidade da maioria das pessoas envolvidas nesse trabalho – e destaco a escolha da palavra maioria, porque há personagens que, em algum momento, contestam as escolhas feitas por Nina daquilo que será transmitido – são sintomas de uma sociedade que combina a velocidade da informação, a crescente necessidade de novidades e a espetacularização da dor e do desastre em busca única e exclusivamente de vantagens, sejam elas financeiras, sejam elas apenas de reconhecimento público. Esses comportamentos são muito bem retratados na cena memorável em que Lou Bloom entra antes da polícia em uma cena de assassinato, mas prefere filmar o cenário e fugir a pedir ajuda, enquanto uma das vítimas ainda agoniza no chão da cozinha.
O Abutre é um filme surpreendente e motivante, que pode atingir diferentes tipos de público e possibilitar diferentes níveis de interpretação. Com a direção competente e o roteiro muito bem elaborado por Dan Gilroy somados à interpretação intensa e digna de todos os prêmios e indicações de Jake Gyllenhall e à sua construção do interessantíssimo Lou Bloom – que podemos considerar uma mistura de Trevor Bickle com Normam Bates -, O Abutre é um dos melhores filmes do ano e certamente constará do meu TOP 5 de 2014.
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