Pós-escrito a Interestelar
A ficha técnica do filme você encontra aqui: http://razaodeaspecto.com/2014/11/17/interestelar/
Na vida de um artista reconhecido, chega
um momento em que, dependendo do séquito de fãs que se acumula, qualquer
produto passa a ser automaticamente incensado como genial – ou, no mínimo, é
objeto de um nível de tolerância que outros criadores, menos célebres, não
gozam alcançar. Penso, por exemplo, em Caetano Veloso, que rima “eta”
com “Tieta” e fala uma porção de bobagens, mas continua considerado
gênio da raça pela média da qualidade de sua produção passada.
Christopher
Nolan é um cineasta com alguns filmes geniais – dente os quais incluo, sem
temor, três: “Amnésia” (Memento, 2000), “O Grande Truque”
(The Prestige, 2006) e “A Origem” (Inception, 2010). Sâo filmes com
roteiros bastante originais e reviravoltas (ou finais relativamente em aberto)
que se encaixam organicamente. Seu envolvimento nas obras vai além da direção,
sendo produtor e pelo menos coescritor em boa parte de sua filmografia.
Ao contrário
da maioria, eu não sou particularmente fã de sua abordagem para o Batman.  Se, por um lado, optar por um enfoque mais realista,
após os desastres de Joel Schumacher, parecia uma opção sábia à época, o
resultado final foram filmes do Batman com pouquíssimo Batman em tela, uma
exploração muito frágil do visual do personagem – em especial nas cenas de ação
– e um enfoque excessivo nos veículos. Apenas “O Cavaleiro das
Trevas” (The Dark Knight, 2008) fica acima da média, e, ainda assim por
conta da performance espetacular e supreendente de Heath Ledger como o Coringa,
além do restante do elenco que compôs o núcleo principal (Gary Oldman, Aaron
Eckhart, Maggie Gyllenhaal e Michael Cane, irrepreensíveis).
Sua nova
jornada cinematográfica é Interestelar, filme de ficção científica que tem tido
grande sucesso de público e sido bastante elogiado pelo apuro técnico no que
diz respeito ao que seria uma experiência de viagem intergaláctica. Utilizando teorias
atuais sobre buracos negros e buracos de minhoca (“wormholes”), Nolan
flerta com a ficção científica clássica dos anos 1960, mas atualiza seu ritmo
(e foi apenas impressão minha ou os robôs do filme são uma homenagem ao monolito
de 2001?). De fato, o filme é muito bem produzido e dirigido – mas, por trás da
grandiosidade a que se propõe, o filme acaba atingindo um resultado aquém do
que poderia, em grande medida por derrapar em clichês e pieguismo.
Quando se sabe
Steven Spielberg era o cineasta originalmente envolvido com a direção do filme,
é possível entender uma série de fraquezas da construção do protagonista: um ex-piloto
de testes da NASA, caipira mas destemido, e cheio de recursos (e não é à toa
que o texano Matthew McConaughey foi escolhido e entrega com perfeição o
papel). Ele cuida da sua família e tenta salvar, da melhor maneira, o mundo que
o cerca, condenado por uma praga que destrói, ano a ano, diferentes cultivos.
Temos também uma criança prodígio (Mackenzie Foy, excelente), que não se
encaixa naquele projeto de vida medíocre e que recebe estranhas mensagens que
parecem vir de um fantasma que interage com a imensa estante de livros de seu
quarto.
Da montagem
spielberguiana e manjada desse prólogo, somos levados à tal viagem intergaláctica,
patrocinada por uma NASA agora semi-clandestina, que buscará encontrar um novo
mundo a ser habitado pela humanidade – já que, em pouco tempo, será impossível
plantar qualquer comestível, e mesmo respirar, em um planeta Terra no qual
imensas tempestades de areia assolam o cotidiano da população. Como idealizador
da missão, o quase onipresente nas obras de Nolan, Michael Caine (um ator, um
trocadilho).
O segundo
terço do filme – a viagem, propriamente dita – é o melhor de Interestelar. É
aqui que são trabalhados os conceitos da astrofísica – cortesia de Kip Thorne,
físico que, além de consultor, foi produtor executivo do filme. Aqui somos
introduzidos aos personagens de Anne Hathaway, Wes Bentley e David Gyasi,
cientistas com experiência “apenas de simuladores”, que farão a
contraparte do nosso herói, rústico, mas o único com vivência real em uma
espaçonave. Enquanto isso, na Terra, a relatividade temporal fez que com que Foy
envelhecesse para Jessica Chastain (sempre linda e competente).
E então, sutis
como o brilho de uma estrela distante, dois problemas acometem o filme: a
previsibilidade das situações e suas soluções e, mais notadamente, a escalada
do pieguismo. Para discutir mais em detalhes, seriam necessários spoilers que eu evitarei. Mas não é
difícil deduzir que o personagem de McConaughey está ali mais pra salvar sua
família do que a humanidade. As escolhas dos personagens vão levar exatamente para
onde se imagina que levarão e o amor – isso, o amor – passará a ser variável
fundamental do filme.
A grande tese –
que, em si, poderia ser explorada de forma muito mais rica – é a de que o amor,
tal qual a gravidade, é uma força que consegue transcender dimensões. Fosse
essa premissa discutida e testada, ou explorada por uma equipe de cientistas, e
o filme alcançaria novos patamares. Entretanto, a ideia é lançada em um momento
de crise, em um diálogo choroso e pelos motivos menos científicos possíveis,
tornando-se, simplesmente, uma opção brega. Mas não se preocupem – nosso cowboy espacial conseguirá segurar a
espaçonave à unha, tal qual touro bravo, e manobrá-la em uma cena que forçará a
suspensão da descrença.
Dito assim,
pode aparentar que o filme tem poucas qualidades. Definitivamente, não é o
caso: o elenco, todo ele, tem performances muito boas; a trilha sonora de Hans
Zimmer aparece com toques grandiosos quando precisa, e sabe silenciar; e toda a
parte técnica transmite, como pretende, um ar de verossimilhança constante.
Há que se lamentar,
entretanto, que Nolan tenha se recusado a filmar Interestelar em 3D. Há muitas
obras em que o efeito torna-se caça-níqueis e desnecessário, mas neste filme
teria sido espetacular usar a tecnologia para brincar com a percepção dos espectadores,
em especial quando, em determinado ponto do filme, há visitas a um buraco negro,
distorções de espaço-tempo e dimensões que transcendem as nossas três
cotidianas. Ponto positivo, ainda, para o simbolismo do envio de certas
mensagens por meio dos livros – em meio a uma tecnologia tão avançada, é bom
saber que eles ainda servem para algo.

Superior a
Prometeus (Prometheus, 2012), Interestelar ainda fica aquém de Gravidade
(Gravity, 2013) como grande filme “espacial” dos últimos anos. Na
dúvida, faça como Neil deGrasse Tyson, e eleja Contato (Contact, 1997) – com o
próprio McConaughey – como o grande filme de ficção científica verossímil da
sua coleção. Nolan segue um cineasta confiável: assistir a um de seus filmes é garantia de uma obra bem produzida e, no mínimo, instigante. Mas tudo – até sua genialidade – é relativo, não?  
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