Na telinha: Camelot

Gênero: Drama histórico/Fantasia
Direção: Ciaran Donnelly, Jeremy Podeswa, Stefan Schwartz, Mikael Salomon e Michelle MacLaren
Roteiro: Chris Chibnall e Michael Hirst (criadores), Thomas Malory (livro-fonte), Louise Fox,Terry Cafolla, Steve Lightfoot e Sarah Phelps
Elenco: Joseph Fiennes, Eva Green, Claire Forlani,  Jamie Campbell Bower, Tamsin Egerton, Peter Mooney, Clive Standen, Philip Winchester, Chipo Chung, Sinéad Cusack
Produção: Michael Hirst, Chris Chibnall, Fred Fuchs, John Weber, James Flynn, Ann Thomopoulos,
Craig Cegielski, Tim Headington, Graham King, Douglas Rae, Morgan O’Sullivan
Fotografia: Joel Ransom
Montadores: Sidney Wolinshy e Steven O’Connell
Trilha Sonora: Mychael Danna, Jeff Danna
Duração: 10 episódios de aproximadamente 50 min.
Ano: 2011
Países: Irlanda, Canadá e Reino Unido
Cor: Colorido
Estreia: 02/07/201 (Brasil)
Estúdios:  Starz Originals e GK-tv

Sinopse: Adaptação da lenda do Rei Arthur e seus cavaleiros. Na Bretanha do século V, morre o Rei Uther Pendragon. O mago Merlin decide apoiar a coroação do jovem e impetuoso Arthur, filho bastardo do rei, criado como um plebeu. Ele deverá unir o reino e governar de forma nobre e honrada, desde seu castelo, em Camelot.

Imagine uma série de TV
baseada em livros famosos, com ambiente medieval, pitadas comedidas de
fantasia, muita violência e nudez, e lançada em 2011. Se você pensou em
“Game of Thrones”, – parabéns! – você se enganou. A obra em questão é
“Camelot”, mais uma tentativa de adaptação da lenda do Rei Arthur e
seus cavaleiros da Távola Redonda.
A série prometia muito: entre
seus criadores, estava Michael Hirst, o mesmo dos filmes Elizabeth (1998) e
Elizabeth: a idade de ouro (2007), além de Tudors (2007-2010). Por essa
amostra, a qualidade dos roteiros parecia garantida, com intrigas políticas
palacianas temperadas de erotismo, em reconstituições de época competentes
(ainda que não totalmente perfeitas). Só para darmos mais crédito a quem
merece, Hirst criaria, após Camelot, a série Vikings, outra preferida de quem
gosta do gênero.
Ademais do criador confiável,
Camelot conseguiu reunir um elenco bastante interessante:  Joseph Fiennes tinha potencial para ser o
melhor Merlin desde Nicol Williamson; Eva Green, em sua estreia na TV, como
Morgana, garantiria sedução e cara de doida na medida certa; e Claire Forlani
oferecia um Igraine ao mesmo tempo belíssima e sábia, quase élfica.
Com tudo isso, a série não funcionou
como deveria e resumiu-se a apenas uma temporada de 10 episódios. Oficialmente,
a Starz – produtora da série, a mesma de Spartacus – alegou dificuldades de
conciliar as agendas de seus principais astros, além do alto custo de produção
de cada episódio. A esses desafios,some-se que ficou claro que a série empalideceu na
comparação com sua contemporânea Game of Thrones, mais ousada e bem resolvida.
O resto do elenco também se
segura bem, com Tamsin Egerton como uma das mais belas
guineveres da história, e Philip Winchester, Peter Mooney e Clive Standen como
Leontes, Kay e Gawain, os principais caveleiros de Arthur, com personalidades
bem definidas. Do lado dos antagonistas, Sinéad Cusack traz uma Sybill (personagem
que não me lembro de existir nas lendas) bastante segura em sua vilania, e Chipo
Chung como Vivian – quase homônima da Dama do Lago, o que me faz pensar qual
seria o destino da personagem, tivesse a série mais temporadas.
Por outro lado, embora sejam
dele os diálogos mais interessantes da série, o Merlin de Fiennes soa insosso.
Talvez, com mais temporadas, o ator pudesse achar o personagem melhor – mas,
para alguém do seu quilate, e que fez um Shakespeare genial, esperava-se mais.
Grande parte do problema, no entanto, foi a catastrófica escolha de Jamie
Campbell Bower (de Sweeney Todd e… well,
Crepúsculo) como Arthur. Seu pouco talento dramático e sua semelhança física
com o Salsicha, dos desenhos de Scooby-Doo,
não colaboram para um papel cheio de nuances. Arthur deve ser um jovem que se
descobre, de uma hora para outra, rei dos bretões, responsável por conduzir uma
nova era de paz e idealismo, e ao mesmo tempo um guerreiro e chefe militar
eficiente. São poucos os atores que conseguem transmitir todas essas camadas, e
Bower fracassa miseravelmente.
A saga do Rei Arthur e seus
cavaleiros tem origem em diversas fontes e foi objeto de incontáveis adaptações
ao longo dos séculos, sendo Le Mort
d’Arthur
, de Thomas Malory, e a obra de Chrétien
de Troyes
apenas as mais famosas. Sem pensar muito, só olhando para a
estante, me ocorrem o Joseph d’Arimathe
e o Merlin de Robert de Boron, Parzival
de Wolfram von Eschenbach; The Idylls of
the King
, de Tennyson; The fall of
Arthur
, de Tolkien; The once and
future king
, de T.H.White; Prince
Valiant
, de Hal Foster; The Mists of
Avalon
, de Zimmer-Bradley; Camelot
3000
, de Mike W. Barr e Brian Bolland; e a trilogia das Crônicas de Artur,
de Bernard Cornwell. Isso para ficar apenas na ficção, e excluindo sátiras.
A história, tomada em sua
totalidade, se estende potencialmente desde as origens do mago Merlin (ou mesmo
de Avalon), até as consequências da morte (?) de Arthur. Há, ao longo dessa
saga, diversas subtramas, como o amor proibido de Lancelot e Guinevere, a
aventura de Gawain contra o Cavaleiro Verde, a história de Tristão e Isolda, a
demanda do Santo Graal, a derrota de Merlin, e a ascensão e queda do sonho de
Camelot. Ao adaptar uma história tão longa e vasta, há que se tomar decisões
que podem levar a um produto final muito ruim (como na maioria dos casos) ou
genial. O importante é saber porque se quer adaptar um mito: é apenas pelo lado
aventuresco?  Tem-se a consciência do que
se quer mostrar, em termos de ensinamentos e mitologia com essa nova adaptação? 
Há alguns parâmetros que
sustentam a história, e que seria bastante inteligente, por parte dos
roteiristas, conhece-los e respeitá-los, para que a simbologia e a força do
mito permaneçam. Arthur é o rei, o símbolo central: uno com a terra: a ascensão
e a decadência do seu reino impactam na própria condição humana; sua dedicação
ao reino o faz deixar  Guinevere relativamente
em segundo plano, o que abre espaço para o triângulo amoroso com Lancelot; este
é o cavaleiro quase perfeito – seu defeito é amar a esposa de quem não deve, de
seu rei e melhor amigo; Kay não é um cavaleiro brilhante, mas um bom
administrador, por isso é senescal de Camelot; Gawain é o cavaleiro mais fiel a
Arthur, e sua força está ligada ao sol; Elaine é símbolo de amor trágico; Tristão
e Isolda, de amor proibido e trágico; Percival e Galahad (e o menos conhecido
Bors) são os cavaleiros mais puros, e por isso vislumbram o Graal. Morgana tem
forte ligação com a magia, e uma relação de admiração e rancor com Merlin – que
é sábio e demoníaco ao mesmo tempo. Você pode mudar os fatos, adaptar as
histórias… mas os simbolismos tem uma razão de ser.
Revisitar os mitos é um rico
exercício para cada geração, mas convém não fazê-lo de forma leviana. Além
disso, talvez seja melhor se concentrar em um ou outro aspecto da mitologia do
que tentar contar toda a história – ao menos se você não tem muitas horas de
tela para fazê-lo. Camelot potencialmente poderia vir a ter, mas não convenceu
sobre a necessidade de sua permanência no ar.
Pra piorar, no caso
arthuriano, no cinema o sarrafo foi colocado muito alto com Excalibur (1981) de
John Boorman. Embora não respeite, em termos factuais, o que acontece em
Malory  – sua principal fonte -, o filme
conseguiu concentrar, em pouco mais de duas horas, os principais fatos da saga,
ao mesmo tempo que incorpora uma linguagem simbólica fortíssima e bem cuidada. Todas
as adaptações feitas na história são bem sucedidas – se não seguem exatamente o
livro, transmitem seus ritos e dramas simbólicos. Como já comentei aqui no
Razão de Aspecto, comparável a ele em termos de qualidade, apenas o Holy Grail do Monty Python, mas com uma abordagem obviamente diferente e
deliciosamente nonsense.
Algumas memórias pessoais em
relação a adaptações da lenda arthuriana para o cinema incluem a total hipnose
causada por “A espada era a lei” (The
sword in the stone
, 1963), responsável maior pelo meu gosto pelo tema e
catalizador da minha paixão por corujas. Lembro também da empolgação, nos idos
de 1994-5, quando comecei a ler as notícias sobre Lancelot, o Primeiro
Cavaleiro (First Knight, 1995): Sean
Connery como Arthur?  Richard Gere como
Lancelot?  Julia Ormond como
Guinevere?  O primeiro filme que acertava,
mais ou menos, a relação de idade entre os três vértices do triângulo amoroso?  Ia ser bom! 
Só que não foi legal ver o Lancelot, nobre de nascimento na lenda,
interpretado por um Gere tirador de onda, que precisa superar as Olimpíadas do
Faustão para conseguir um beijo da rainha, enquanto Camelot parecia um enfeite
de bolo com os cavaleiros vestidos como a tripulação de uma série de Jornada
nas Estrelas. “Mister Kay, beam me
up!
“. Uma terceira tentativa veio com Rei Arthur (King Arthur, 2004), que se pretendia uma abordagem mais realista da
lenda (pra quê, eu não sei). Quando a texto introdutório do filme “informava”
que “os historiadores concordam que…” eu já tive ganas de levantar
e sair do cinema, sabendo por experiência e pesquisa própria, que há
pouquíssimo consenso em um suposto Arthur histórico. Muito feio, Antoine Fuqua,
prometer historicismo e vir com Lancelot, personagem criado no baixo medievo,
como linha condutora do filme. Ao menos a adaptação para a TV d’As Brumas de
Avalon (The Mists of Avalon, 2001) é consideravelmente
mais digna.
Longe de ser uma série ruim,
Camelot é apenas razoável, o que não basta para uma série sobre o Rei Arthur, e
não foi suficiente para garantir sua sobrevivência. As locações são belíssimas (embora
os efeitos de computação que recriam Camelot sejam bastante artificiais) e há
algumas adaptações interessantes de trechos da lenda – como a retirada da espada
da pedra, ou a origem da espada Excalibur (que, poucos sabem, são espadas
diferentes – e méritos para Hirst por se lembrar disso). O poder de recontar façanhas
humanas de uma forma mitológica – que poderia ser um dos motes da série – é
ensaiado por Merlin em alguns episódios, mas não tem continuidade. A tensão do
triângulo amoroso Arthur-Guinevere-Leontes (fazendo aqui o papel de Lancelot) é
anunciada, mas pouquíssimo desenvolvida. E mesmo os dramas de Merlin e Morgana
em relação à consequência do uso de seus poderes mágicos é mais prometida do
que explorada – possivelmente pelo cancelamento precoce da série.
Em um momento em que se
anuncia, para 2016, o início de uma série de filmes dirigidos por Guy Ritchie
sobre a lenda arthuriana, sobe o temor de um convite para que Robert Downey Jr interprete
um Tony-Merlin-Holmes-Stark playboy e tagarela, enquanto explosões, correrias e
cenas em câmera lenta mostrem as sensacionais batalhas bretãs.
Talvez, quando mais
precisarmos, um cineasta faça uma adaptação inteligente das lendas arthurianas.
The once and future adaptation.  Até
lá, assistamos a Game of Thrones, e “let´s not go to Camelot; it’s a silly
place”
.
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