REPRISE: 007 – OPERAÇÃO SKYFALL
Genero: Ação
Direção: Sam Mendes
Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade
Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Ben Whishaw, Rory Kinnear.
Produção: Barbara Broccoli e Michael G. Wilson
Fotografia: Roger Deakins
Edição: Stuart Baird
Trilha sonora: Thomas Newman
Duração: 143 mimutos
Ano: 2012
País: Reino Unido/Estados Unidos
Lançamento no Brasil:  26 de outubro de 2012

NOTA DO RAZÃO DE ASPECTO:

Uma das principais linhas temáticas de “007 – Operação Skyfall” (2012) trata do embate entre o já estabelecido e os vetores de inovação – ou, como queiram, entre o velho e o novo. Sem estragar aqui a solução proposta pelo filme para esse conflito, pode-se arriscar que o dilema espelha, em grande medida, o questionamento recente da própria série do espião mais famoso – se é que espião pode ser famoso – do cinema.
Desde “Cassino Royale” (2006), os produtores Barbara Broccoli e Michael G.Wilson (filha e enteado, respectivamente, de Albert “Cubby” Broccoli, produtor da série até sua morte, em 1996) procuraram revitalizar o personagem, dando ares mais realistas e adotando uma estética mais próxima – e talvez inspirada em demasia – na franquia de filmes de Jason Bourne  (e não deixa de ser curioso perceber que, enquanto Skyfall é um excelente exemplar de sua franquia, “O Legado Bourne” (2012) empalidece a sua).
Para essa nova fase, Broccoli e Wilson optaram por flertar com a ideia de um “reboot” da série – ainda que a permanência de Judi Dench no papel de “M”, chefe do Serviço Secreto inglês, embora bem-vinda, impeça qualquer coerência cronológica nesse intuito. Para o papel de Bond, Daniel Craig, um bom ator, embora com perfil bastante destoante de seus antecessores, e que deveria humanizar o personagem.
O sucesso do já mencionado Cassino Royale fez com que a escolha de Craig caísse nas graças de crítica e público. Para os produtores, a cartada foi perfeita: os fãs antigos não deixariam de assistir um novo exemplar da série, quaisquer que fossem as mudanças introduzidas (fãs são fãs, afinal); por sua parte, toda uma nova audiência foi conquistada pelo tom menos exagerado dos filmes, em especial os da era Roger Moore e o último dos estrelados por Pierce Brosnan (que, diga-se de passagem, tem sua “gestão” à frente do personagem  injustiçada por causa do duvidoso “Um novo dia para morrer” (2002), após estrelar três bons filmes).
A impressão que se tinha era a de que a opção pela inovação tinha sido absolutamente acertada, tanto que o episódio seguinte, “Quantum of Solace” (2008) pesou a mão no “espírito Bourne”.  O problema é que, em Solace, quase tudo é meio ruim, aparentemente feito sem muito cuidado ou brilhantismo:  a cena pré-créditos, pouco inspirada e confusa, melhoraria dois tantinhos se os créditos fossem reposicionados para após a perseguição pelos telhados de Siena; na música-tema, os ganidos de Jack White e Alicia Keys não resultam em uma canção interessante (e o superestimado White deveria se dar por satisfeito pelo riff de “Seven Nation Army” ter se tornado cântico de torcida de futebol); a animação que acompanha “Another way to bark – digo – to die” é mal resolvida… sem falar no roteiro linear de cenas de ação ligadas por diálogos breves, que apenas direcionam a próxima “fase do video-game”.
E se insisto em uma introdução tão longa antes de passar diretamente a Skyfall, é porque a primeira sensação que tive ao final de sua projeção é a de que Marc Foster, diretor de Solace, deve estar com vergonha de sair de casa. Perto de Skyfall, Solace, que já não parecia muito bom quando do seu lançamento, parece ainda mais medíocre. Se, por um lado, a diferença de qualidade na direção de Sam Mendes é gritante, por outro não é só ele o responsável pela nova correção de rumos oferecida por Skyfall.
Aparentemente, produtores e roteiristas perceberam que, se, por um lado, a inovação é eventualmente necessária para oferecer sobrevida a personagens e girar a roda da fortuna (literalmente) da vida, por outro, adotar o novo pelo simples gosto pela novidade pode deixar, com o tempo, um gosto ruim e exigir uma reflexão. Após o deslumbre com a novidade, em geral entende-se porque um clássico é um clássico.
As tentativas de trazer “humanidade e realismo” para a franquia 007 tiveram vida curta no passado. Basta lembrar da breve passagem de Timothy Dalton pelo personagem no final dos anos 1980. Após um início promissor em “Marcado para a Morte” (1987), o competente ator galês, que poderia ter marcado época com o personagem, não sobreviveu a um “Licença para Matar” (1989) em que dedicou-se a uma vendeta contra um traficante de drogas, em um roteiro digno de subepisódio de “Miami Vice”.
Skyfall mostra que os produtores resolveram apostar no que sabia-se bem sucedido há décadas, trazendo doses cavalares de elementos clássicos de Bond, ainda que repaginados. A diferença é que fizeram isso com um enorme apego à qualidade, e, ao jogar pelo empate, ganharam de goleada. Nesse sentido, Skyfall encontra um balanço muito interessante entre o novo e o velho Bond.
A começar pela escolha de Adele para interpretar a música-tema de Skyfall, novamente, como tradição, homônima ao título do filme. Adele é a representante mais próxima que temos hoje de divas como Shirley Bassey, Gladys Knight ou Tina Turner, e não é por acaso que sua canção lembra tanto temas de outros filmes do personagem.
A abertura do filme volta a ser digna, com uma cena de ação e perseguição grandiosa, realizada em uma locação inusitada, com stunts espetaculares e desfecho inusitado. Em Skyfall, minor spoilers, há, por exemplo, uma perseguição de motos por telhados e a participação de um dragão-de-Komodo em uma briga. E nada disso prejudica a credibilidade da série, diga-se de passagem, nem exige cortes de câmera a cada segundo e meio. A animação dos créditos é bem cuidada e traz dicas sobre o roteiro de todo o filme, antecipando-o e resumindo-o sem prejudicar suas surpresas.
Mais do que bem filmadas e pensadas, Mendes consegue imprimir às cenas de ação um elemento que tinha sido perdido em Solace: o suspense. Em um bom filme de Bond, a ação não é representada apenas por tiros ou correria: o espectador tem de se esquecer de respirar enquanto o laser de Auric Goldfinger parece dirigir-se inevitavelmente para cortar o heroi em dois, por mais que se saiba que ele dará um jeito de escapar no último momento. Skyfall traz de volta essa sensação de expectativa, em cenas que não parecem estar ansiosas para serem resolvidas e que permitem a construção da tensão.
Tudo isso sob a fotografia de Roger Deakings, veterano de obras aclamadas como “1984” (1984), “O Jardim Secreto” (1993), “Um sonho de liberdade”(1994), “Fargo” (1996), “Kundun” (1997), “Uma mente brilhante” (2001) e “O Leitor” (2008). Deakings oferece a Skyfall provavelmente o trabalho de fotografia mais interessante dentre os 23 filmes oficiais da série. O contraste entre as cores e luzes quase futuristas de Xangai com as paisagens verde-acinzentadas das highlands escocesas ecoam com perfeição o embate entre o novo e o estabelecido, centro nervoso do roteiro de Neal Purvis, Robert Wade e John Logan.
De volta também há um vilão grandioso, tão interessante quanto Bond, senão mais, interpretado magistralmente, em um misto de psicopatia e caricatura, por Javier Bardem (e,minor spoiler, com características físicas peculiares, como os clássicos vilões da série). Seu Raoul Silva, com todo seu conhecimento sobre os potenciais da cibernética para o caos, opõe-se aos pretensamente ultrapassados Bond, M e MI-6, e entra para a galeria de grandes vilões da série, fazendo Dominic Greene, o irmão perdido de Augustinho Carrara, interpretado em “Quantum of Solace” pelo em geral competente Mathieu Amalric, ser enviado em definitivo para o oblívio.
O elenco coadjuvante quase rouba as cenas do filme – o que, no caso da “Era Craig”, é quase uma coisa boa. Ben Whishaw como o novo Q, armeiro do MI-6, representa uma nova aposta – a do nerd tecnófilo que acha que entende mais do mundo de dentro de seu quarto do que todos os agentes de campo somados (e, novamente, o filme dará respostas bastante bem-vindas sobre o embate entre o novo e o estabelecido). Gareth Mallory, superior burocrático de “M”, estabelece-se como personagem mais multifacetado do que a primeira impressão pode causar – o que não surpreende, em vista da já esperada excelência de Ralph Fiennes. Mesmo Rory Kinnear, repetindo o secundário papel do Agente Tanner, já presente em Solace, traz carisma ao personagem e faz torcer para que ele retorne com frequência a franquia.
Mas o grande destaque vai para Judi Dench, que tem a maior e mais importante participação como M dentre os sete filmes da franquia que participou. Skyfall centra-se, em grande medida, em sua personagem, e na relação, algo edipiana, algo sadomasoquista, que tanto Bond quanto Silva mantêm com ela. Sem sombra de dúvida, desta vez a Dame é a grande Bond girl, com direito a citação de Tennyson para nos lembrar da dimensão de sua importância entre as atrizes britânicas.
O que nos leva a Bérénice Marlohe e Naomie Harris. Pelo visto, o fantasma de Vesper Lynd tem levado os produtores a escolher contrapartes pouco marcantes para Craig. Enquanto Harris faz uma Eve sem sal e  pouco convincente (talvez de propósito) como agente de campo, Marlohe entra para a lista de personagens belíssimas mas mal aproveitadas da série, da qual já fazem parte – MAJOR SPOILERS !!!! – Gemma Arterton e Teri Hatcher.
E, por fim, Craig. Trata-se, sem dúvida, de um ator com recursos dramáticos muito mais vastos do que Brosnan. Certamente o melhor da série desde Dalton, com a diferença que a ele foi oferecido mais tempo e roteiros melhores (à excecão de “Nenhum… ou, melhor dizendo, Quantum of Solace”. Craig sai-se muito bem em sua via de humanização do personagem. O grande problema é que não há talento que compense a falta de elegância, e o jeitão de vilão russo. Não é à toa que no box de blu-rays dos 50 anos da franquia, Craig é um único a não portar um pistola, optando por um trabuco maior que seu braço.
O Bond de Craig continua, apesar dos esforços – como a ajeitada na abotoadura após um salto perigoso em um trem em movimento – truculento e pouco à vontade em cenas de maior suavidade e tino social. Há uma cena específica no filme, em que Bond caminha em uma praia em direção a um bar, que desperta uma lembrança desnecessariamente forte de um Wolverine loiro. Se Connery era másculo e durão, não confundia essa postura com o ar de brigão de bar demonstrado por Craig. Talvez por isso o ator convença muito mais na aridez interiorana da Escócia do que com um smoking em Macau.
Os produtores certamente estão pouco preocupados se Craig caminha de perna aberta ou se tem ombro de marombeiro, e não de estudante de Eton. Ian Fleming e Cubby Broccoli podem se revirar no túmulo o quanto quiserem…  O rapaz tem trazido um bom retorno financeiro à série, e, ao que consta, nela continuará por pelo menos mais dois filmes, para o desespero de quem sabe dar um nó de gravata. Fica aparente que a opção de modernização passa pela crise da imagem das elites. Em um mundo em busca de democratização, o requinte é visto com culpa, e o bonito mesmo é ser meio feio. Como solace, a presença de Ralph Fiennes na tela nos faz ter ao menos insights do que poderia ser um Bond elegante.
O futuro da série está garantido. Mendes – que permanece na direção para o próximo filme – terá, entretanto, a dura missão de se superar e dar continuidade ao delicado caminhar em gelo fino de manter a tradição de Bond sem voltar a um mero pastiche ou ceder ao próximo modismo estético. A trama de Cassino Royale e Quantum of Solace, envolvendo uma misteriosa organização, permanece em aberto e deverá ser retomada em algum momento. Se Skyfall é o melhor filme de 007 de todos os tempos, como ando lendo em alguma resenhas, não sei afirmar. Mas é fato que Sam Mendes está de parabéns. E que venha o novo, mas sempre standing on the shoulders of the giants.
PS: e torçamos para que os cartazes melhorem MUITO… os três últimos filmes trouxeram cartazes absolutamente desinteressantes.
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